segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Palavras ausentes

Por Isadora Satie

Não consigo escrever sobre isso.

As palavras esconderam-se ou sequer existem, é essa a impressão que tenho. Engana-se quem pensa que escritores têm palavra pra tudo. Às vezes quando temos a certeza de que encontramos as palavras capazes de descrever aquela situação, elas escorrem de nossas próprias mãos. Existem momentos em que eu gostaria de poder narrar qualquer coisa que fizesse o leitor conseguir viver, mesmo que por míseros segundos, aquilo posto em palavras.

Alguma
coisa que fizesse o leitor sentir em seu peito, o aperto; em sua pele, o arrepio; em seu coração, a dor; em seus olhos, as lágrimas a caminho.

Talvez meu desejo não seja só meu. E sim, de muitos os que escrevem. Como eu gostaria de poder contar a você, aquela história de amor com todos os detalhes, surpresas, emoções, alegrias e dores, que nela se fazem tão presentes. Quem sabe um dia, com ela eu crie uma poesia, uma crônica, um conto, ou um livro bem pesado. Porém, nesse exato momento, as palavras do dicionário não me servem, as frases prontas são inúteis, e as de efeito, nenhum efeito causariam por aqui.

Que tarefa difícil encontrar o título perfeito a fim de criar ao menos um humilde parágrafo. Por enquanto, título algum chega perto do nome que essa história um dia terá. É que, possivelmente, as histórias sem título são as que ainda estão sendo vividas. Mas isso é só devaneio meu. Sabe, talvez nem de amor ela seja. Olha, talvez eu é que sou jovem demais para dizer que se trata de uma história.

De qualquer forma, um dia eu escreverei sobre isso. O tempo dirá se em algumas frases ou páginas. Tentarei relatar a história inteira na intenção de que alguém, nesse mundo, possa entender além das palavras. Mas, sim, eu sei que se engana o escritor que acredita leitores são capazes de sentir o que verdadeiramente há por trás de cada palavra. Por isso, apenas espero que essa história um dia possa tocar o coração de alguém, como anda tocando o meu.

Tudo que eu posso dizer é que ela é baseada em fatos reais, da minha própria vida. Talvez eu esteja a caminho de seu clímax, de seu fim ou do mais louco começo.

Bem, um dia eu e você saberemos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sobre leões, cabelos e diferenças

Por Isadora Satie

Há mais ou menos um ano, eu estava dentro de uma salinha, com muitas crianças, sendo chamada de “tia” e repetindo “e cinco, seis, sete, oito!” incansavelmente - mentira, isso cansava. Com poucos meses na função de professora de dança, percebi que dentro de uma carreira como essa, existe ao menos uma criança, que por algum motivo, marca a sua vida.

Arranjei outro emprego, mais de um ano se passou, porém uma pessoinha chamada Audrey, continua sendo uma das minhas melhores lembranças.

Audrey chamava minha atenção a cada aula. Ela não era tímida como as outras, era cara de pau, na verdade. Por isso, me fazia rir tanto. Era inquieta, curiosa, magricela e falante. O tipo de criança que facilmente influencia as outras. Era esperta e sabia exatamente como amolecer meu coração antes de fazer algum pedido descarado. Era cheia de qualidades. Ela se destacava, não só pela personalidade. Sua cor preferida era rosa e segundo ela, seu cabelo era o que ela possuía de mais bonito.

Um dia estranhei o fato de Audrey ter aparecido tão quieta na aula. Quando a vi, pensei comigo mesma que provavelmente ela teria brigado com a melhor amiga, ou levado uma bronca feia de alguma outra professora. Enquanto observava Audrey, percebi que havia outra coisa estranha: o seu cabelo. Não estava solto e bonito como em todas as aulas. Estava preso, num coque.

Quando decidi perguntar o porquê disso, ela apontou o dedo para algumas meninas e com voz baixa, respondeu: “É que elas disseram que com o cabelo solto, eu pareço um leão”. E pela expressão triste, as outras meninas deveriam ter feito aquela afirmação de uma forma um tanto cruel. “E desde quando leões não são bonitos?”, foi o que acabei falando. Pelo menos arranquei uma risada daquela menina. Mas por dentro, eu estava indignada.

Audrey tinha cabelos encaracolados, castanhos e enormes. O cabelo dela era diferente do das outras meninas. Ela, por inteiro, era diferente. Pela personalidade e pelo cabelo. Mas em meio àquelas meninas, diferença mesmo era a cor da pele dela. Audrey era a única criança negra da turma.

Bem, eu tentei convencê-la do quanto tudo que havia nela era bonito. Expliquei que as diferenças dela faziam com que ela se destacasse de uma forma muito boa. E que as opiniões dos outros sobre nossa aparência, são pura besteira.

Na aula seguinte, enquanto ligava o som, senti alguém de leve me cutucando e quando virei, “Olha, tia!”, “O quê?” perguntei querendo saber para onde olhar, “Meu cabelo! Tá solto!” Lá estava ela, com a carinha feliz de sempre, exibindo aquele cabelo todo. Pronto, eu havia ganhado o dia. Audrey era esperta e havia entendido meu recado.

Apesar de parecer apenas um relato de um fato qualquer, esse episódio me fez refletir. Se isso aconteceu na infância de Audrey, coisas piores podem acontecer em seu futuro e, por isso, eu espero que essa menina carregue minhas palavras pelo resto da vida.

Na verdade, eu espero que ela nunca mais queira esconder toda a beleza que nasceu com ela. Espero que ela se orgulhe do que tem e do que é, por essência, descendência ou opção.

Quero que Audrey se torne mulher em um mundo onde diferenças raciais não tenham mais impacto sobre a sociedade. Onde casos absurdos e polêmicos de racismo e preconceito, façam parte apenas do passado. Onde todo esse papo de igualdade não seja mais motivo de discussão, debate ou protesto.

Desejo que ela cresça sem ter que conviver com a incapacidade humana de aceitar o diferente. Espero que um dia ela deixe de ser a única aluna negra da sala de aula. Espero que, futuramente, ela possa ocupar algum cargo que hoje nenhum negro ocupa. Espero que ela cresça em um mundo onde diferenças ainda existam, mas que não sejam mais vistas com olhos de julgamento. Em uma sociedade onde seja plena a consciência de que o valor de qualquer ser humano é o mesmo.

Utópico, não? Pode até ser. Mas eu prefiro continuar acreditando que o mundo possa mudar. Talvez eu não esteja mais por aqui, em carne e osso, para ver tamanha mudança, mas se um dia eu souber que nunca mais falaram do cabelo da Audrey, já ficarei feliz.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Certezas incertas

Por Isadora Satie

Talvez qualquer ser humano, um dia, já tenha olhado fixamente para o céu, esperando uma resposta divina e imediata escrita nas nuvens. Talvez qualquer ser humano tenha, um dia, lutado contra a imprevisibilidade da vida, mas tenha perdido a batalha. Talvez qualquer ser humano, um dia, tenha sofrido ao perceber que o controle das coisas não está em mãos humanas.

Tudo é incerto.

Mas há algo na incerteza que me excita e me enfurece ao mesmo tempo. Não poder ler os capítulos da própria história é maravilhoso, apesar de cruel.

As interrogações que se alastram pela mente parecem corroer o cérebro. Aquelas destetáveis crises existenciais quase nos convencem da necessidade de uma camisa de força. Pensar por que as coisas são como são, enlouquece. Quem sabe, a solução seja aceitar que a vida é como uma corda que fica a cada dia mais bamba e para não cair, é preciso balançar junto.

A vida é sacana. Parece até fazer piada com a nossa cara. Tira sarro de propósito, para o momento em que afirmarmos que nada mais vale a pena, ela, engraçadíssima, surpreende de alguma forma e deixa nossa opinião do avesso.

Ela é uma desequilibrada. Faz você rir até a barriga doer, chorar até seus olhos arderem. É calmaria e inquietação. Dor e felicidade. Silêncio e ruído. Constantemente inconstante. Altos e baixos, altos e baixos, o tempo todo. E é tudo tão súbito, que chega a assustar. Ela dá pequenos choques em você, para que nada pareça cômodo demais. Para que você não apenas exista, mas viva. Por isso, o imprevisível tem sua beleza.

De todo esse devaneio, eu percebo que a dúvida é o que nos faz querer continuar até o fim, mesmo que aos trancos e barrancos, só para ver no que tudo isso vai dar.

Ela constrói e destrói muitas das nossas convicções. Ela nos faz metamorfose. Ela é a dona das oscilações. A incerteza é uma certeza que carrego comigo. Mas, quem sabe, seja mais uma convicção efêmera. Talvez eu esteja profundamente enganada e questione minha própria certeza em algum dia desses e escreva sobre como a vida é ridiculamente previsível, em algum texto desses.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Lágrimas desconhecidas

Por Isadora Satie

Ontem o dia amanheceu perfeito. Sol e céu azul. Acordei bem, sem meu típico mau humor matinal. Saí de casa e caminhei até o ponto de ônibus, pensando que nada estragaria meu dia e que todos estariam radiantes, como eu.

Entrei no ônibus e segui até os últimos bancos. Com um sorriso, pedi licença e sentei ao lado de uma desconhecida. "Que mulher antipática!", foi o que pensei no momento. Ela nem me ouviu, sequer olhou na minha cara. Eu estava invisível, conclui. Com mais calma, quando minha indignação sumiu, olhei para ela e percebi os fones que estavam em seus ouvidos e seu olhar perdido, vagando pelas paisagens borradas pela velocidade do ônibus. O vento que entrava pela janela era um tanto violento, mas ela pouco se importava com seus cabelos que ficavam mais embaraçados e bagunçados.

Eu não estava invisível. Ela que não estava ali.

Seu olhar foi ficando mais desolado. Até que seus olhos começaram a se encher de água. Consegui perceber o quanto ela se esforçava para que nenhuma gota escorresse pelo seu rosto. Foi mais forte que ela. A primeira gota d’água salgada passeou lentamente pelo seu rosto. Assim foi com a segunda e todas as outras. Ela desmoronou.

Ali estava eu, de mãos atadas.

Pensei em perguntar se estava tudo bem, mas seria estupidez da minha parte. Era óbvio que não estava, seu mundo desabava ali mesmo. Queria poder abraçá-la, mas era a primeira vez que a tinha visto na vida. Queria até poder desligar a música que tocava em seus fones. Talvez a música tivesse um arranjo melancólico e uma letra tão triste, capazes de fazer qualquer um chorar. Mas não se tratava disso.

Ao meu lado, ela sofria em silêncio. Aquela cena acabou com a minha manhã. Era como se eu conseguisse sentir a dor daquela moça. Ela era jovem, do tipo que aparenta idade inferior à verdadeira. Vestia roupas simples, mas não precisava de nada extravagante para ficar mais bonita. Tinha cabelos castanhos e curtos e feições admiráveis. E os olhos azuis, porém encharcados.

Será que um homem havia tido coragem de magoá-la? O coração dela devia estar em pedaços, o amor que ela sentia por ele talvez não tenha sido recíproco e a decepção foi tão grande que a dor transbordava. Ou será que havia brigado com alguém antes de entrar naquele ônibus? Ela também poderia ter recentemente perdido algum familiar ou algum amigo. Poderia até ter enterrado, dias atrás, o cãozinho que a acompanhava desde a adolescência. Seriam problemas na faculdade, no trabalho?

Minha vontade era de dizer a ela que tudo aquilo mais cedo ou mais tarde, passaria. Embora tudo isso seja ridiculamente clichê. Eu diria que chorar por um homem que possui uma pedra no lugar do coração, é desperdício de tempo. Que a esperança nas pessoas não deve morrer, apesar de tudo. Que brigas acontecem, mas o perdão é sempre bem-vindo. Que perder uma pessoa ou até um cão, faz com que a saudade nos corroa e que os dias percam o colorido por tempo indefinido, mas que morte é uma das partes da vida. Diria que problemas nunca são eternos, eles apenas nos fazem uma visita rápida e logo se despedem.

Eu repetiria: tudo passa. Pois a vida é sacana mesmo, incerta, imprevisível, repleta de desequilíbrios, choros e sorrisos. Por fim, eu a abraçaria. Se fosse qualquer uma daquelas coisas que especulei, diria que sei exatamente como é. Pois eu realmente sei.

“Licença?”, ela praticamente sussurrou pra mim. Levantei rapidamente para deixá-la passar e cabisbaixa, com os olhos vermelhos me deu um sorriso tímido de agradecimento.

Eu só espero que alguém tenha atravessado o caminho dela e oferecido um abraço. Ou dito qualquer coisa para amenizar a dor daquela moça, tão bonita para deixar a tristeza dominá-la. Ou espero que ela tenha levantado a cabeça, olhado para o céu e percebido que seus olhos combinariam muito mais com o dia, se lágrimas não existissem neles.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Vício

Eu comecei devagar, de mansinho.

Ninguém havia me avisado que ela viciava. Antes mesmo que eu me desse conta, comecei a usá-la todos os dias. Ninguém havia me falado que meu corpo e minha própria mente ficariam assim, ávidos por ela. Não importa a ocasião, o lugar ou o que quer que seja sempre há um jeito de mantê-la comigo.

Eu sempre dou um jeito.

Nos momentos em que ela se faz ausente, minhas pernas como as de alguém que sofre de ansiedade, não param de balançar. Minhas mãos precisam encontrar algum lugar pra batucar. Meus ouvidos não aguentam o som caótico da multidão, ou o silêncio pesado da solidão. Mas quando ela se faz presente, circula lentamente por veias e artérias. Meus pelos arrepiam e se retorcem, um por um. Meus olhos aos poucos se fecham e em meu rosto surge um sorriso preguiçoso e involuntário.

Ela faz com que eu vá embora daqui por um instante e de repente volte. Viajo, sem apegos, para lugares que nem os sonhos mais surreais e desvairados me transportam. Ela me arranca da monotonia rotineira, das raízes dessa realidade. Não é fatal, é apenas viciante. A verdade é que ela me salva.

No momento, meu cérebro não funciona como deveria. Meu corpo se move sem que eu pense. Espasmos contínuos surgem, por causa do consumo exagerado. É incrível como ela me toma em poucos segundos. Uma mescla de medo e prazer, essa é a sensação. Medo de não ser capaz de parar. Prazer por me sentir em outra dimensão. Ela faz de tudo. Ela consegue afundar qualquer um no buraco da melancolia dos dias ruins e multiplicar a euforia dos dias bons.

Assim eu a consumo, ou ela me consome.

Não pense que ela prejudica o coração, faz mal ao cérebro ou estraga os pulmões. Meus ouvidos são os únicos dignos de pena, é o que dizem. Embora ela tenha o poder de preencher o espaço como fumaça, não falo de droga. Eu é que chamo de vício o que muitos por aí, chamam de música.

Por Isadora Satie

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Um instante

Existem dias em que a vontade mais forte é a de não ficar por aqui. Fugir de casa e talvez desse mundo. Mas eu sempre acabo ficando.

O que eu faço é escolher uma boa música, colocá-la no último volume, e me mover de acordo com cada detalhe da melodia. O corpo vai sozinho e aos poucos, deixo tudo pra trás. É minha saída de emergência para os incêndios que a vida provoca. E de incêndios, a vida de qualquer um é cheia. Por isso, parei de me perguntar se o que vivo seria uma loucura exclusiva.

Se é loucura, é de todos.

Dias atrás, uma amiga me disse que frequentemente sai correndo pela porta de casa, com o skate na mão. Segundo ela, o som que as rodinhas do skate fazem no asfalto substitui o barulho alto e incômodo das típicas brigas de seus pais.

O vento em seu rosto torna-a capaz de carregar consigo toda a confusão que insiste em habitar sua mente. As lágrimas podem não cessar, mas logo secam ou ficam pelo caminho. Ela deixa pelo caminho, até a própria vida.

Pelo menos por um instante.

Uma vez conheci um homem que dizia gostar de pescaria. Ele não pescava peixe algum. Quando fisgava algo, poderia vir qualquer coisa, mas jamais um peixe. Ele pouco se importava. O que verdadeiramente apreciava era aquele momento solitário, que nada tinha de triste.

Ficar por horas, sentado, observando a água e a paisagem o fazia esquecer das reclamações dos filhos, do casamento complicado, das buzinas inconvenientes, da bagunça da cidade. Esquecer do caos da própria vida, pelo menos por um instante.

Às vezes ouço minha mãe cantarolar pela casa. Ela me contou que quando jovem, até pensou em seguir carreira na música, mas a vida a levou para outros caminhos. De repente a vejo com o olhar vago, cantarolando refrões, trocando algumas palavras da música, mas mesmo assim é bom de ouvir.

Penso que em momentos como esse, ela sequer me enxerga. Então, deixo ela ali, na outra dimensão que ela mesma criou. Sinto que assim ela esquece da loucura que é passar dias inteiros em um hospital, correndo de um lado para o outro a fim de salvar vidas. E desse jeito, cantando as músicas de um CD antigo, ela salva a própria vida, pelo menos por um instante.

Uma válvula de escape. Um refúgio. Uma vez por dia, por semana.

Uma vez na vida.

Viver com os pés no chão, não impede alguém de querer voar, só para não ter que dar com a cara no chão. Bom seria se tivéssemos umas férias da vida. O jeito é dar espaço a si mesmo. Deixar pra mais tarde essa história de bater de frente com a vida. Encontrar um momento para respirar.

Fugir da realidade não é crime. Não é covardia. É sede de liberdade.

É ser livre de si mesmo. Pelo menos por um instante, que seja.

Por Isadora Satie

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Opostos

Por Isadora Satie

Ela era capaz de sentir. Ele parecia não ter coração. Ela transbordava. Ele quase secava. Ela era chuva incessante. Ele o deserto mais seco. Por um motivo que não se sabe qual, eles se encontraram. Plano de Deus. Destino. Acaso.

Inseridos em realidades completamente diferentes. Ela dançava quando quisesse. Ele marchava quando superiores quisessem. Ela se vestia de acordo com o tempo ou humor. Ele camuflava-se todo santo dia. Ela preferia a verdade, nua e crua. Ele poderia, sem empecilho algum, usar uma máscara, ou mais de uma.

Ela era fogo. Ele gelo. Ela era como primavera. Ele, outono. Posso até dizer que ela era emoção. Ele, muito mais razão. Mas quem os via passar, nada via de errado. Eram bonitos juntos. Seus sorrisos combinavam. Suas manias misturavam-se. Suas vidas conectavam-se. O que ninguém enxergava era como os dois eram opostos.

Ela, amor. Ele, orgulho.

Mas talvez um tivesse o quê ensinar ao outro. Aliás, ainda eram muito jovens. Inexperientes, pouco ou nada sabiam sobre a vida. E algo os unia, ainda não sei o quê, mas parecia ser algo forte, avassalador e único.

Os dois estavam cientes das diferenças que cada um carregava consigo. Aos poucos, percebiam o quanto tudo aquilo poderia ser perigoso e arriscado. Como se houvesse por perto uma bomba com tempo exato para explodir. Porém, sabiam que a química existente entre eles não poderia ser ignorada.

Ela era inocente, ingênua. Ele era esperto, malicioso. Ela vivia o presente, tendo o amanhã como mera hipótese. Ele, preso a um passado obscuro e um tanto sujo. Mas algo os unia. Talvez a vontade que ele tinha de aprender. Junto com a vontade que ela tinha de ensinar. Assim seguiam pacientes um com o outro. Pacientes com a vida. Dizendo a si mesmos que o tempo é sábio, e tem mais juízo que duas cabeças jovens.

Estações passavam-se. Não havia verão que esquentasse o interior gelado daquele cara. Não havia inverno que abrandasse qualquer chama dentro daquela menina. Ele a machucando sem querer. Ela o amando sem querer. O que viviam era tão incomum, tão louco, que ninguém poderia dizer-lhes o que fazer. Conselhos eram inúteis.

Eles lutaram contra a realidade, foram fortes. Mas um dia a bomba explodiu. Ela saiu machucada, ele não conseguiu protegê-la. Por isso, penso que final feliz não é para os fortes, e sim para os sortudos.

Hoje, eles não podem sequer dar as mãos. A temperatura dos dois não é mais compatível. Talvez nunca tenha sido. Ilusões, nesse mundo, são tão corriqueiras! A união fez com que enxergassem que não pertenciam ao mesmo quebra-cabeça. Mas eu sei que ainda existe algo capaz de mantê-los íntimos. Em uma sintonia quase surreal. Apesar de tudo, ainda atraídos um pelo outro. Talvez permaneçam assim por um longo tempo, mas nunca fiquem juntos. Pois os opostos se atraem, e apenas isso.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Crise dos 20?

Por Isadora Satie

Não te parece injusto ter tão pouco tempo de infância e esse tempo todo pra ser adulto? Os mais sábios e vividos, podem até dizer, e com razão, que sou muito nova para estar reclamando. Mas chegar aos 20 com a sensação de estar carregando uma tonelada de responsabilidade nas costas e chegar ao ponto de ter que encaixar um tempinho na agenda para estar escrevendo um texto como esse me enlouquece.

Dias atrás precisei ir ao colégio onde estudei desde a segunda série, onde passei a metade da minha vida. Uma palavra para o momento: nostalgia. Estar lá, ao mesmo tempo em que foi bom, foi triste por eu só conseguir afirmar mentalmente “estou ficando velha”. Não reconhecia mais nenhuma das faces dos alunos que perambulavam por lá. Onde estavam aqueles a quem eu chamava de pirralhos? Ficando velhos também...

Meus antigos professores é que continuam firmes e fortes, talvez com mais rugas e com o sorriso, mascaram qualquer cansaço. Tive que abraçá-los, um por um. No momento, senti uma vontade louca de perguntar por que nunca tinham me avisado sobre o que ando sentindo. Bom seria se tivessem me deixado ciente de que deixar a época de colégio para trás não seria tão divertido assim. E entrar no mundo adulto, menos ainda. 

A vida adulta tem seus encantos e privilégios, mas nada se compara ao prazer da infância. Há uma contradição em dizer que a vida adulta oferece liberdade. Que liberdade é essa em que seus horários são totalmente preenchidos? Em que o seu chefe, seus pais e a faculdade cobram de você como se fizessem parte de uma conspiração? Isso porque nem falei de auto cobrança, o que às vezes assusta mais que os outros juntos.

A liberdade que tínhamos quando ainda não podíamos sentar no banco da frente do carro, era outra. Sonhar era o lema principal. Lembro que anos atrás eu falava, com uma convicção admirável, que me tornaria dentista, veterinária e arquiteta. Sim, os três. Ai de quem ousasse interferir nos meus planos! Hoje em dia, sonhar é diferente, e até mais limitado. Exige seriedade, pé no chão, cabeça no lugar. Aos 20 e poucos é como se tivéssemos que viver inteiramente em prol do nosso futuro. Tentando, a cada dia, buscar caminhos que nos farão felizes aos 30 e poucos. 

Apaixonar-se já foi bem mais fácil. E agradável. Éramos capazes de entrar numa paixão e sair dela intactos. Lembro que desentendimentos entre amigos eram resolvidos com um abraço forçado e um pedido meio tolo de desculpas. E funcionava. Sinônimo de sucesso era conquistar nota máxima em uma prova de matemática. Lágrimas eram rotineiras, pois joelhos e cotovelos ralados eram rotineiros. Decepção era quando se descobria que o Papai Noel, na verdade, era o seu pai, seu avô ou um velhinho qualquer. Remédio eficaz para qualquer problema era o colo do pai ou da mãe. O medo que tínhamos nessa época era o de monstros, estranhos e “homem do saco”. 

O que me faz falta é o jeito como enxergávamos o mundo. Olhos ainda inexperientes e, por isso, curiosos, atentos e sem maldade. Éramos cegos e, para nós, o mundo nada tinha de perverso. Mas a fome de viver presente na infância era o que impulsionava a vontade de crescer. 

Talvez ninguém tenha me avisado sobre tudo isso, com receio de que eu perdesse a fome pelo futuro. Eles poderiam ter estragado tudo com certos spoilers. Pois o que faz de alguém um adulto é aprender por si mesmo como enfrentar a realidade, sem que haja aviso prévio.

A saudade é o que nos sobra.

Há quem não abra mão dessa vida de adulto por nada. Há quem, ansiosamente, espera o dia para entrar em uma máquina do tempo. Também há quem possa me dizer que todas essas palavras nada mais são do que uma mera crise dos 20 e poucos anos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Loucos como você. Em um lugar repleto de biografias.

Por Isadora Satie

Corredores gélidos, repletos de portas, por vezes, gradeadas. Livres, porém apressados, são os sujeitos de jaleco branco. Os outros que vivem naquele mesmo ambiente, ao primeiro olhar, permanecem cruelmente isolados - mas não estão isolados, muito menos de forma cruel. Atrás de cada porta, há alguém que vive em meio a uma insanidade, a um desatino, desvario, a uma falta de juízo e senso de discernimento, a um transtorno, distúrbio. Enfim, que vive em meio a uma loucura. Loucos, é assim que o senso comum os define. Muitos deles estão cientes do próprio problema, mas ainda assim querem voltar para casa e serem acolhidos.

Eles são os diferentes da sociedade. Não, diferentes não. Eles são iguais a qualquer um, sabe por quê? Pela história que carregam nas costas. Antigas histórias de percurso, fortes, difíceis, humanas. Se quiser entender o que os levou até lá, pergunte-os sobre o seu passado. Os que cometeram algum delito talvez falem sobre alcoolismo ou o vício em drogas que sustentavam desde a adolescência. Sobre uma casa que atearam fogo ou sobre algum familiar próximo que agrediram. Ainda que com certo receio na fala e desconfiança no olhar, eles se expressam. Cientes de que o erro cometido um tempo atrás não foi por acaso.

Existem os que possuem um acompanhamento médico maior devido a algum transtorno mental mais acentuado. Eles podem jurar que acontecimentos foram reais quando, por vezes, não passaram de delírios. Escutam vozes que sequer pertencem à realidade. Agitados, agressivos, sem controle de si mesmos. Muitos são extremamente introspectivos, o que acaba os tornando solitários. Talvez loucos sejam solitários, justamente pela sua loucura. Amargamente abandonados pelas pessoas que costumavam chamar de família. Há os que mantêm esperança de que receberão alta para, logo depois, serem levados para casa pela mãe, pelo pai ou por algum outro parente. A expectativa permanece, mesmo que a realidade prove o contrário.

Embora sejam cuidados por bons profissionais, o desejo de um dia poder sair de lá é quase unânime. A vontade de se recuperar é grande e, diga-se de passagem, admirável. Porém, há os que se acostumam, pois viveram uma boa parte da vida como nômades de hospitais psiquiátricos e existem até os que comemoraram muitos aniversários dentro do mesmo hospital. Eles sentem-se protegidos lá dentro, isentos de qualquer enxurrada de julgamentos e preconceitos da sociedade. Imunes a qualquer rejeição da própria família. Esses não sentem necessidade de voltar para casa, pois adotam o meio hospitalar como seu lar.

Como qualquer ser humano, eles possuem histórias únicas as quais muitas vezes guardam para si mesmos. Quando existe, a vontade de inserir-se novamente na vida social é gritante. Se não, é porque estão cientes das possíveis consequências de sair de lá. De qualquer modo, eles são loucos. Loucos por carinho e atenção, loucos por quem os acolha, loucos por uma vida menos conturbada, loucos para concretizarem sonhos. Loucos com desejos tão normais que intitulá-los de diferentes da sociedade, seria loucura.

Crônica feita depois das visitas em hospitais psiquiátricos, no 2° semestre do curso de Jornalismo pela Unisul.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Verdadeira ficção

Depois de três meses, ele a fitava ininterruptamente com aqueles olhos repletos de uma profundeza rara, que chegava a provocar nela certas tremedeiras. Como se rogasse por um humilde espaço em seu coração, como se implorasse por uma fresta que o tornasse capaz de adentrar esse coração com toda a cautela possível.

Jogava, aos poucos, todos os seus sentimentos, até então velados, na mesa onde os dois se encontravam. Num tremendo esforço, ele até conseguiu despir-se da timidez de sempre... Mas pronunciava cada palavra como se arrancasse com força uma por uma de seu interior, como se doesse ter que ser tão verdadeiro. Ela já sabia. Por uma intuição, pressentimento ou mero palpite, ela já sabia.

Os sentimentos dele transbordavam aos olhos do mundo, sem que ele percebesse. Em todas as vezes que ela o abraçava fortemente, deixando-o surpreso, quase que assustado. Em todas as vezes que recebia dela um carinho ou um sorriso inesperado. Porém, ela sempre foi assim, com qualquer um, totalmente desprovida de segundas intenções e, quem sabe, na cabeça dele apenas estivesse tudo bagunçado, invertido, mal interpretado.

Naquela mesa, ela apenas mantinha sua cabeça baixa, ciente de que se a levantasse se depararia com um coração alheio em mil pedacinhos, pois o coração dela não estava ali e, havia anos, não mais a pertencia. Estava nas mãos de alguém que talvez nem fosse digno de ser dono... Sentindo-se incapaz, não parava de perguntar a si mesma por que no amor a reciprocidade não se dava a toda hora. Seria tudo tão simples!

Chegou a conclusão de que é como uma cadeia sentimental. Alguém ama outro alguém, que ama outro alguém. E assim vai. Trocas sinceras são raríssimas. O que se sente vai sem garantia de retorno. A única resposta que saiu de sua boca, como num sussurro, foi: só o tempo sabe.

O tempo sabe quem, quando e onde esse amor, se é que isso existe, será devolvido na mesma intensidade a alguém que hoje sofre dessas típicas dores cardíacas emocionais. Enquanto isso, ela espera. Ele espera. Talvez um pelo outro, talvez por outras pessoas. Enquanto isso ela desabafa num papel qualquer. E, na tentativa de se distanciar da própria realidade e fingir que nada disso tem a ver com ela, prefere escrever assim, sempre em terceira pessoa.

Por Isadora Satie

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Calor do momento

Vish... Esse assunto de novo?
Calor do jogo, claro. Acredito. A expressão dela ao encher os pulmões para insultar o goleiro é a prova concreta disso. Ninguém enxergou isso, não? Todo mundo ali deve ter chamado o cara de "macaco" no calor do jogo! Todo mundo faz insultos preconceituosos, em meio a uma multidão e dezenas de câmeras, por causa do bendito calor do jogo. Errar é humano, ainda mais no calor do jogo, gente!

Aos desavisados, estou sendo completamente irônica.

Dias atrás, havia prometido a mim mesma que não perderia tempo emitindo opinião sobre isso. Pois, sejamos francos. Nos dias de hoje, quem vê vantagem em falar sobre preconceito? Já se fala tanto, o tempo todo, que chega a dar preguiça.

É sério, acho um tédio.

Parece que essa conversa de que somos todos iguais nunca surtirá efeito. Mas hoje ao me deparar com uma notícia que tinha como título “Jovem relata ameaças e quer pedir desculpa a Aranha: 'Foi calor do jogo'”, minha indignação transbordou.

Como assim essa mulher justifica um ato preconceituoso pelo calor do jogo estando ciente de que insultos do tipo, por lei, são dignos de punição?

Só pode ser burrice, então.

Quem ainda duvida do racismo embutido no xingamento clichê da dita cuja? O preconceito está nítido. E calor do momento definitivamente não é justificativa, uma vez que a expressão dela não condiz com a de uma torcedora enfurecida, que perdeu a razão em meio ao descontentamento com o andamento do jogo.

Tem gente que precisa encarar uma verdade: preconceito racial existe, como qualquer outro tipo de preconceito. Falar de algum tipo de preconceito nem sempre é exagero, nem sempre é drama. No entanto, concordo com o fato de que sentar numa cadeira e escrever minha opinião sobre casos polêmicos do gênero pode ser tão banal ou insignificante quanto escrever uma poesia sobre batatinhas que nascem e espalham ramas pelo chão. Não, elas não se esparramam.

Por mais que se fale do quanto todos os seres humanos são iguais e merecem respeito independente de orientação sexual, religião ou etnia, a mentalidade de muitas pessoas simplesmente não se modifica, como se estas tivessem nascido com o cérebro atrofiado.

É difícil ter que encarar uma realidade dessas.

Não interprete como se eu tivesse perdido a esperança na humanidade. Apenas compreendo que nem ameaças indevidas de pessoas inconsequentes ou punições judiciais garantem que uma pessoa tire da frente dos olhos, a venda da ignorância.

Ainda não posso dizer se já perdi a esperança nos seres humanos ou se cultivo dentro de mim um sonho tão bonito quanto aquele um dia discursado por Martin Luther King. Talvez eu ainda seja uma sonhadora. Mas, o que se pode fazer diante do preconceito que parece que sempre se fará presente?

Eu não sei. No momento, minha única certeza é sobre o que não fazer.

O que não se pode é ignorar o fato de que pessoas tomam atitudes absurdas, pois ainda são movidas por um sentimento tão feio e infeliz, que deveria ser retratado apenas nos livros de história. Não é porque ainda existem pessoas cegas, que devemos fechar os olhos para não ter que ver uma realidade tão suja.

Que fique claro que meus pensamentos aqui expostos não foram despertados pela minha atual indignação. Todas essas palavras não foram escritas por um mero calor do momento.

Por Isadora Satie

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Eu e minha descarada bigamia

E eu juro que nunca serei monogâmica, amarei os dois para sempre. O que fazer se sou duplamente apaixonada? Eu duvido muito que o seu coração nunca tenha se alterado por duas pessoas diferentes, assim, ao mesmo tempo. É como eu me sinto, o tempo todo, todos os dias. Apesar dos pesares, eu não abro mão de nenhum dos dois.

Minha mãe não apoia. Meu irmão não dá a mínima. Minhas amigas não compreendem. Quanto aos dois em questão, cada um puxa para o seu lado, obviamente. Talvez um alimente certo ódio mortal em relação ao outro, mas já me acostumei a essa disputa cotidiana.

Confesso que há dias em que acordo com a incômoda sensação de estar sem rumo, em cima do muro. Numa noite, cheguei a sonhar que estava em um circo, mas não fazia parte da plateia. Vestindo um collant exageradamente brilhoso, estava na dúvida entre sorrir graciosamente para o público ou me concentrar para não cair subitamente, pois me encontrava em cima de uma longa corda que não parava de chacoalhar por nada desse mundo.

Mas que diabos eu fazia ali? Depois de acordar num susto, entendi que eu era aquilo que chamam de equilibrista. Sempre pensei que sonhos são capazes de refletir nossa realidade de alguma forma. Vivo me equilibrando entre dois amores, caminhando numa corda que não para de balançar um só minuto. Mas, no sonho eu lembro que meu coração trepidava constantemente pela adrenalina própria da situação, tão ruim e tão boa ao mesmo tempo.

Nesta realidade, a emoção me acompanha também. Há quem não me entenda, talvez você mesmo, aí sentado, não me entenda. Quer que eu explique por quê? A humanidade é acostumada com a história de que, nessa vida, existe um único amor capaz de nos trazer a almejada felicidade. Há quem venha me falar, com ar de sabedoria que, um dia, terei que escolher qual dos dois quero ao meu lado até que a morte nos separe.

Poucos acreditam quando digo que já pensei nisso ou que houve uma vez em que até tentei... Mas sabe qual o final da história? Não deu certo. Meus dias foram tão insuportáveis que me recuso a recordá-los. O fato é que um sacia necessidades que o outro é incapaz de saciar. Um está perto quando o outro está longe e cada um me completa de uma forma, como se fossem minhas duas metades. Simples assim.

Pretendo, futuramente, casar com os dois de uma só vez. Se eu puder ter apenas um esposo, o outro vira amante. E sim, estou ciente de que cultivar dois amores não é fácil... Eles conseguem me deixar maluca, desatinada, fora de todos os eixos possíveis. Mas é desse jeito que seduzem e me conquistam diariamente. Que pareça loucura ou equívoco de minha parte, mas quer saber? É assim que eu gosto.

Por Isadora Satie

Este é apenas um texto sobre o meu coração atualmente perdido entre duas paixões: o jornalismo e a dança. De qualquer forma, é nessa ''bigamia'' que se manifesta o meu eterno amor pela expressão. Isso é o que me importa.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Meu super-herói de antigamente


Ontem, meu primeiro dia de férias, resolvi dar um jeito no lugar mais bagunçado do mundo. Sim, o meu quarto. Comecei pela escrivaninha. Organizando umas coisas, descartando outras, encontrei um porta-retrato caído, com um pouco de cupim na madeira, maltratado pelo tempo, mas com uma fotografia que me provoca uma dorzinha a qual podemos chamar de saudade.

Nessa fotografia existem duas pessoinhas, com as roupas mais bonitas do guarda-roupa, sorridentes e muito parecidas. Eu e o cara mais chato do mundo inteiro. Eu e a segunda pessoa mais importante da minha vida. Eu e meu irmão. Não me recordo daquele dia, eu era muito pequena. Mas reconheço aqueles sorrisos meio avacalhados e exagerados de “mãe, tira logo essa foto, por favor!”. Ah, lembrei! Era meu aniversário. Obviamente, minha mãe precisava registrar cada detalhe. 

Em dias como esse, meu irmão sorria como se fosse ele quem sopraria as velinhas do meu bolo de morango. Era um dia feliz para os dois. Parecia que comemorávamos juntos e ainda acho que ele era quem fazia o pedido na hora de eu soprar as velinhas, até porque eu sempre me esqueço desse detalhe – a parte de comer é que importa. Mas era assim, desde sempre. Desde o momento em que eu nasci e minha mãe nos ensinou que irmãos devem se amar e dividir as coisas. Confesso que confundi o “dividir” com “estragar”. Muitos foram os controles de vídeo-game danificados, os bonecos de luta que se tornaram aleijados. Mesmo eu bancando a irmã mais nova e chata, ele era o irmão mais velho e protetor.

Nas férias de inverno e de verão, costumávamos andar muito de bicicleta na rua de lajotas da nossa casa antiga. Lembro que quando eu estava à procura de “aventura”, sentava no quadro da bicicleta do meu irmão, com ele a conduzindo. A velocidade me dava medo e por isso era divertido. Ai de mim se a mãe nos espiasse pela janela. Houve um dia em que perguntei “E se eu cair!?” aí ele disse “Aí tu cai em cima de mim e não se machuca”, e foi exatamente o que aconteceu. A bicicleta desequilibrou naquela maldita areia e caímos. O machucado dele foi feio, o meu não. 

Na mente me vem outro episódio, um tanto desesperador, em que eu me afoguei numa praia cujo apenas o nome faz minha mãe tremer. Eu em minha teimosia cotidiana, não queria voltar para casa de jeito nenhum. Por isso, permaneci no mar enquanto ele e meu pai já estavam quase na areia. Naquele momento, a correnteza era forte e me carregava aos poucos para o fundo. Meu pai ficou paralisado, enquanto meu irmão correu de volta para o mar, improvisando um nado todo desajeitado. Apenas consigo lembrar da água batendo violentamente em meu rosto, sentindo a alça do meu maiô sendo puxada pelas mãos de criança do meu irmão. Depois disso, terra firme! Cheguei à areia sã e salva, vomitando água salgada, com um bando de curiosos em volta.

Durante a infância, um dos meus maiores amores foi, definitivamente, o balanço que existia na escola em que eu estudava no jardim de infância. Mas era um balanço específico, o qual eu posso jurar que me levava até as nuvens. Naquela época, meu irmão era alto para a idade que tinha e, como se não bastasse, era um garoto gordinho. Pra mim, isso era um benefício. Pois lá havia um menino de nome estranho, inconveniente, que gostava de ocupar justamente o meu brinquedo preferido. Coitado do moleque. Meu irmão fazia cara de bravo, ameaçava um soco e ele saía correndo. Esse episódio se repetiu muitas vezes. E nessas muitas vezes eu fui feliz naquele brinquedo, com a ajuda do meu irmão.

Fico pensando que todo irmão mais velho deveria ser assim. Quase como um anjo ou um super-herói. Pois sentia que em situações de perigo, eu não sofreria se meu irmão estivesse por perto. Ele seria capaz de tudo para me ver bem. Insisto até o fim na história de que irmãos devem ser assim. Ligados um ao outro, como eu e ele sempre fomos. Afinal, viemos do mesmo lugar. Da mesma barriga. Dividimos a mesma mãe e o mesmo pai. Compartilhamos das mesmas feições. Às vezes, até das mesmas manias. Coincidentemente, das mesmas músicas preferidas. 

A única diferença é que ele chegou nesse mundo três anos e cinco meses antes de mim. Talvez porque Deus percebeu que ele seria mais forte e corajoso o suficiente para me proteger. Talvez porque estava escrito que durante a nossa adolescência nosso pai se tornaria um ser estranho e ausente, e por tal motivo ele teria que se tornar o homem da casa e, em certos momentos, um pai para mim.

Atualmente, nossa rotina não envolve bicicletas, balanços e, ainda bem, mares perigosos. Cada um tem uma rotina conturbada e diferente, que faz com que existam dias em que apenas trocamos um “boa noite”. Apesar disso, continuamos unidos de uma forma que só quem tem irmão é capaz de compreender. Mas, confesso, sinto saudades da infância, das dezenas de histórias que só eu e ele testemunhamos, dos muitos segredos que guardamos até hoje.

Por Isadora Satie

domingo, 15 de junho de 2014

A arte de procrastinar

Foto: Isadora Satie
Bendito ócio. Bendita preguiça. Bendito descanso! Já passei por momentos em que me sentia dentro de uma insana rebeldia como se infringisse alguma lei da pior forma possível apenas pelo fato de estar no sofá. Com os pés para cima, olhos quase fechando e o pensamento solto, livre. Livre da rotina. Livre das preocupações cotidianas.

Tenho pra mim que quanto mais se corre, mais se sente a vontade, quem sabe a necessidade de, subitamente, pisar no freio com toda a força. O mundo é um caos extremamente capaz de te escravizar, enlouquecer e alienar. Você, a cada dia, sente o gostinho amargo do que é ser um adulto ambicioso em uma sociedade repleta de sistemas, regras e padrões.

Os medos vão muito além daquele causado por um suposto monstro que costumava se esconder no escuro, debaixo da sua cama, todas as noites. O relógio nunca para e possui o incrível poder de fazer você permanecer em movimento constante, pois você precisa correr atrás daqueles pedaços de papel que segundo é dito por aí não trazem felicidade.

Também dizem que tempo é dinheiro, não é? Sim, dizem coisas demais... Porém, seu futuro pode parecer assustadoramente incerto e, às vezes, você sequer faz ideia do que quer para o dia seguinte, que dirá para os próximos anos. E aí, o que me convém perguntar é: por que você corre tanto se, na verdade, não sabe para onde está indo? É, existem dias em que você parece encontrar a si mesmo.

E também dias em que você se perde no meio do caminho, eu sei. É normal. Por isso é preciso parar. Obviamente que em momentos como esse, o mundo continuará seus ininterruptos movimentos rotacionais, enquanto o relógio fica tiquetaqueando em seu ouvido. Mas ainda digo que é preciso parar. Talvez para você se lembrar dos reais motivos que te fazem levantar da cama todos os dias. 

Talvez para que você mantenha os chamados sonhos tão vivos a ponto de se converterem em combustível para as duras 24 horas. Talvez para que você devaneie sobre essa loucura toda que é a vida e seus desafios. Quem sabe, é para que você simplesmente encontre uma justificativa que convença a qualquer um de que sua energia não é gasta em vão. Ou, nada disso! Pode até ser uma mera desculpa daquelas bem esfarrapadas para aquela sua velha preguiça que você faz questão de não desapegar, só porque é bom ficar sem fazer nada. Sem toda essa filosofia reflexiva e só porque é bom procrastinar, praticar o "nadismo" ou seja lá o que for, mas só porque é bom...

Por Isadora Satie

domingo, 8 de junho de 2014

A realidade alheia

Hipocrisia minha se algum dia eu disser que sou totalmente despida de preconceitos, ou que nunca julguei alguém sem conhecer. No fundo, todos nós temos algum preconceito pelo qual lutamos todos os dias para expulsar, ou não. Todo mundo comete o "pecado" de falar da vida alheia de vez em quando, alfinetar as atitudes dos outros, ou logo de cara formar uma imagem de alguém com quem acabamos de trocar duas palavras. Mas, convenhamos, somos humanos, logo completamente imperfeitos.

O importante é estar ciente de que se tal pessoa age, fala ou se veste de uma determinada forma, é porque ela certamente tem um motivo para isso. Penso que cada um guarda consigo uma história capaz de justificar cada atitude. Ninguém é o que é, porque simplesmente se quis assim, do nada. Talvez aquele colega de turma que você julga antissocial, tenha grandes problemas com timidez desde a infância. Talvez aquela pessoa chata do seu trabalho que tira proveito de qualquer situação para chamar atenção, nunca tenha recebido a devida atenção dos próprios pais, e por aí vai. O fato é você não faz ideia das batalhas que o outro enfrenta.

Em vez de perder tempo questionando a diferença, que se perca tempo lutando contra essa tendência humana – por mais humana que seja – de querer que os outros sejam um espelho nosso. Com as mesmas preferências, pontos de vista, objetivos e seja lá mais o que for. Nunca passa pela sua cabeça que pode existir gente por aí se perguntando por que você é assim? Questionando cada escolha e atitude sua? É, tem gente por aí fazendo com você exatamente o que você costuma fazer com os outros.

Sim, julgar todo mundo acaba julgando, mesmo que isento de más intenções. Sei que, por vezes, é um ato inconsciente, mas é válido ter como lembrete de que sempre há uma razão para alguém ser o que se é. Uma pequena dose de bom senso todos os dias já é suficiente para que percebamos que cada um possui e vive a sua própria realidade. E você, nada tem a ver com isso. Não sei quanto à você, mas prefiro cumprir meu dever de respeitar o que não conheço por completo a contestar pelo direito de julgar.

Por Isadora Satie

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Que mude!

"Nada existe de permanente a não ser a mudança." Heráclito


Entenda, encare ou engula: O mundo gira, nada fica no mesmo lugar. Você querendo ou não. E tem outra coisa, quem disse que precisa continuar tudo igual? No mesmo lugar? Para sempre? Ah, que chatice, que tédio... Mas talvez isso seja inerente ao ser humano. Temos um medo constante de mudanças, por vezes evitamos sair da nossa zona de conforto e fazer diferente ou até deixar que a vida faça-nos diferentes.

Que mude! Que haja mudanças. Mas que o que é bom, fique melhor. Que o pouco vire muito ou, pelo menos, suficiente. Que qualquer ódio desapareça, se não, que se transforme em amor. Que o velho seja trocado pelo novo. Que o que não serve mais, seja descartado. Que o passado não tome mais o lugar do presente.

Enfim, que mude. Mude de opinião. De pensamento. De aparência. De emprego. De casa. De paixão – por que não?. De planos. De cor preferida. De hábitos. De sonhos. Se aí dentro a coragem de mudar ainda não foi aflorada, tudo bem. De qualquer jeito, o tempo, o destino, o mundo impõe mudanças à sua vida. Sofrer com elas, provocá-las ou adaptar-se a elas é sua opção. Eu, particularmente "prefiro ser essa metamorfose ambulante"... E você?

Por Isadora Satie

Que dê muita “merda” e que se “quebre a perna”!

Geralmente eu faço o sinal da cruz e uma oração. Tá, três sinais da cruz. Porém, não há nada que me faça ficar tranquila entre aquelas escuras coxias. O frio na barriga é agoniante. Você alonga, pula, aquece, repete aquele oito complicado da coreografia, aquele passo que foi mudado de última hora. Sem contar que às vezes acontece de você se desesperar por ter esquecido aquela parte... Que tem aquele passo lá, que... É pra esquerda né? Ou pra direita? É como uma breve amnésia por causa do nervosismo. Mas é bom, sabia? Muito bom até.

Nada se compara à sensação de estar lá, quase de frente para todo aquele público imenso, onde sua mãe pode estar já cheia de orgulho ou seu amigo, roendo as unhas por você. E aí você coloca os pés no palco, é agora! Que dê muita “merda” e que se “quebre a perna”! Na coxia, você abandona todas as preocupações de hoje, de amanhã e de depois de amanhã. Inconscientemente, acaba indo para o palco sem esses apegos cotidianos. É que lá, você não precisa de nada além de luz e som. Sua dança, coreografada ou improvisada, automaticamente vem. Seus sentimentos ficam demasiadamente expostos. Impossível traduzi-los. Mas, acredite, quem faz parte da plateia, vê que emoções transbordam sobre aquele tablado.

Embora você, muitas vezes, tenha que interpretar, há muito da sua própria essência naquele momento. De repente algum conhecido seu, como se não lembrasse que a pessoa da cadeira vizinha possui ouvidos, berra seu nome. Mais de uma vez até. Você, sem querer, deixa escapar um sorriso meio bobo, como se dissesse um ‘’obrigado’’ apesar de não saber exatamente de que boca o seu nome saiu. Depois disso, é como se você recuperasse o fôlego e ganhasse um gás a mais para a próxima sequência.

É quase outra dimensão. Um estado de espírito único. É a hora de mostrar o que você sabe a quem tiver a boa vontade de assistir. Minutos parecem se esvair em segundos, porque lá você simplesmente faz algo pelo qual é apaixonado. A música acaba. Pronto! Você pode puxar o quanto de ar for necessário. A luz se apaga. Nenhuma música é mais gostosa de ouvir do que o clássico som dos aplausos. Ainda mais quando você sente que merece. Isso tudo aí não tem preço e é indescritível, por isso, paro por aqui.

Por Isadora Satie

terça-feira, 20 de maio de 2014

Desabafo

Ultimamente? Ando longe. Vagando por entre dúvidas, decepções. Decepções essas, completamente inesperadas. Sei que tudo passa, aliás, a vida é feita de fases, as quais possuem início, meio e fim. Não me julgue dramática, não pense que é exagero. Minha vontade mais recente é passar rápido, muito rápido por essa fase, acelerar os ponteiros do relógio, fazer os dias correrem, passar páginas sem lê-las até chegar à parte da história em que fica tudo bem.

Quanto às dúvidas... Afligem. Por estarem, certamente, sem respostas. Perguntas sobre o futuro, o depois, o simples amanhã. Em meio à realidade, as melhores expectativas parecem ter se ofuscado. Que bom que apenas parecem, pois dentro de mim, estão vivas, nítidas. Dúvidas... Muitas delas serão respondidas, outras eu sei que não. E quero acreditar que as decepções ainda se transformarão em uma respiração funda e um: “ainda bem que tudo aquilo acabou.” Não me julgo incapaz, apenas insuficiente. Realmente, não posso fazer quase nada. Apenas espero por quem resolverá tudo. O nome dele? Deus.

Por Isadora Satie

Admito

Hoje comecei a achar que não é pra mim esse negócio de amor
E essas coisas que trepidam o coração, que curam e provocam dor
Tô começando a criar um certo pavor, temor
Isso aí que apelidam de paixão, pra mim, perdeu a cor
Drama? Talvez... Ah, até acho que não
É que, por mais sucinto, meu sentimento no final é todo em vão
Decido desistir, então
Trancar por tempo indeterminado esse coração
Até alguém por aí aparecer
E roubá-lo de mim, sem que alguém possa ver
Mas que o roube, por simplesmente merecer
Exijo que não o fira, tampouco o faça sofrer
É... Não desisto, apenas espero
Não como antes, juro, estou sendo sincero
Vou parar por aqui, só mais algumas linhas e eu me desespero
Ei, amor! Vou esperar. Porque amar, admito, eu quero

Por Isadora Satie

Sedenta

É que eu, admito, tenho meus lados, minhas camadas e talvez contradições.

Hoje tenho fome do teu abraço protetor, das tuas palavras mais doces, um breve afago que seja. Amanhã, estarei sedenta pelo teu beijo mais abrupto, nutrido por desejo, pelos teus toques mais ousados, desaforados. 

Por ti, fisicamente, o mais próximo possível. Por aquele teu olhar que rapidamente escancara segundas e terceiras intenções. No fundo, você aqui, já basta. Pouco importa essa oscilação toda de vontades afoitas. 

Aqui, de qualquer jeito, com qualquer cara, em qualquer dia, hoje ou amanhã. Eu falo sério, já basta.

Por Isadora Satie

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A vida não é poesia

Hoje me disseram que a vida não é poesia. No exato momento em que escutei, palavras para revidar não me vieram. Pois, desculpem-me os adeptos dos mais sábios versos, mas eu concordo. A vida não é rimada ou feita de versos. Ela não é boa como os parágrafos divagantes das prosas. Momentos tristes não têm a beleza de uma estrofe dominada pela tristeza. Essa vida aí é repleta de rabiscos que borracha alguma faz desvanecer, é perversa, racional demais, sem rimas, pesada, hostil. Mas, calma aí... Desculpem-me os extremos racionais, mas a vida desses poetas mundo afora, anônimos ou não, torna-se muito mais viva, eu sei, quando um papel tem as linhas preenchidas por palavras. Palavras por vezes desconexas, melancólicas, digressivas, apaixonadas, positivas, sentimentais. Pela mais sucinta escrita que nos represente e faz de nós, meros humanos nessa vida dura e louca, humanos que amenizam suas dores, exaltam alegrias, alimentam sonhos, descarregam emoções, apenas com poesia. Está certo, a vida não é poesia, mas eu só consigo viver porque esta existe. 

Por Isadora Satie

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Pode chegar mais perto...

Bem perto. Vem cá e me dê um daqueles seus abraços. Assim você pode me proteger. Deite aqui, do meu lado. Converse comigo. Divida comigo todos os seus sonhos desde os mais simples até os mais loucos, que eu farei de tudo para realizar ao menos um deles. Sinta-se a vontade para desabafar. Caso existam angústias aí dentro, deixe-me fazer com que elas desvaneçam. Conte-me seus segredos, dos mais sombrios até os mais bobos. Prometo guardá-los comigo para sempre, e me esforçar para não rir dos mais tolos. Diga-me as músicas preferidas da sua lista, aí direi as minhas e depois podemos decidir qual delas será a nossa música. Que tal?

Dança comigo? Mesmo que você seja extremamente leigo nisso, mesmo que seus pés esbarrem violentamente nos meus, não se preocupe. Se precisar, eu ensino a você o que sei. Quanto ao que eu não sei, aprendemos juntos. Nunca ouse culpar a si mesmo por não ser o cara perfeito, saiba que nunca desejei perfeição em ninguém. E de certos defeitos seus, até que eu gosto. Deixe o tempo passar pra que eu comece a estranhar suas manias, depois, você bem sabe, me acostumo a todas elas. Espero que você se acostume às minhas mil manias também...

Seja comigo simplesmente o que você é. Faça com que hoje, eu te conheça por completo. Mas que amanhã, eu seja surpreendida. E depois de amanhã, também. E deixe. Deixe o destino comandar tudo, deixe os nossos corações ficarem mais próximos a cada dia. Até que o ritmo das nossas batidas se igualem. Embora eu aprecie literatura e essa coisa toda, não precisa me recitar poesias de vez em quando. Por mais que nos amemos todos os dias, não quero ouvir um "eu te amo" a cada segundo. Mesmo que certos gestos vindos de você possam ter um belo significado, eu não te peço rosas e nenhum outro tipo de flor em datas especiais.

Apenas permita a reciprocidade desses meus sentimentos. Apenas olhe para mim, bem no fundo dos meus olhos, a ponto de adivinhar o que se passa no fundo do meu coração. Segure minha mão como se nunca pretendesse largar. Esteja presente, de corpo e alma, quando estivermos só eu e você. Não importa onde, como e quando, faça-me completamente, plenamente e somente sua. E depois disso, continue aqui comigo. Sim, bem perto. Depois você pode vir aqui, para que eu peça um daqueles seus abraços.

Por Isadora Satie

Louca

Não sei quanto a você, mas eu prefiro ser chamada de louca. Porque louco é quem, obviamente, não é normal, é fora do padrão. É quem faz o que quer, arrisca sem medo, mergulha de cabeça onde a felicidade se encontra. E o padrão das pessoas de hoje, parece que é pensar que a vida dura pra sempre, só que assim a gente deixa tudo pra depois, pra daqui uns anos, abusando do “talvez”, “quem sabe” ou “um dia”. E os sonhos lá permanecem, num futuro que nunca chega.

O padrão é ter medo de arriscar, de fazer diferente, de correr atrás daquele sonho grande que a gente tem desde a infância, daquela vontade louca que surgiu na adolescência. Tem muita gente feliz de verdade por aí que é idolatrada, parece sortuda demais e é até chamada de louca. São apenas pessoas que, mesmo sem garantia de êxito, não deixaram pra depois. Apenas pessoas que não estavam a fim de sonhar pela vida toda, cientes de que a mesma é efêmera, incerta, e de que esse “depois” pode nem chegar. Bom se todo mundo fosse louco assim...

Por Isadora Satie

Os do contra

Já faz parte da minha rotina eu me atrasar para o trabalho. Isso faz com que eu fique apressada e com uma agonia que, no final, não adianta em nada. Chego no terminal e espero meu segundo ônibus do dia. Em uma dessas manhãs, sentada em um banco qualquer, deparei-me com uma cena me fez pensar. Da minha plataforma, consegui ver a fila gigante que se formava na plataforma seguinte.

Enxerguei um bando de gente apressada e, talvez, atrasada como eu. De repente, reparei que lá havia um casal de jovens, um tanto diferente, meio alternativo, digamos. Ela tinha cabelos avermelhados, curtos. Ele cabelos castanhos, cacheados. A pele dos dois contrastava bastante. Vestiam roupas bem coloridas, talvez por isso tenham me chamado a atenção. Ou talvez porque pareciam estar em outra dimensão.

Possuíam expressões diferentes das outras pessoas da fila. E por mais que o ônibus estivesse atrasado – como sempre – eles estavam tranquilos. Eram jovens, de uns vinte e poucos anos. E convenhamos, os jovens de hoje vivem com a cabeça fervilhando. Mas eles estavam despreocupadíssimos. Suas mochilas estavam no chão, conversavam, riam um da cara do outro, beijavam-se. Embora não fizessem o tipo de casal meigo, meloso, ou coisa assim, transmitiam algo bom. Por isso fiquei feliz quando vi a cena que os dois protagonizavam. É como se fosse uma daquelas boas passagens dos filmes de comédia romântica, e eu fizesse parte da figuração, junto com todas as outras pessoas. Por isso penso que eles estavam em outra dimensão.

Eles podiam ter se conhecido na noite passada, em uma balada qualquer, beberam um pouco mais do que deviam, acabaram ficando um com o outro e, por fim, lá estavam. Ou tiveram uma longa história de amizade, desde a época do colégio, até que num belo dia, um deles, com o coração angustiado, resolveu assumir a paixão e, por fim, lá estavam. Não importa que tipo de casal eles representavam. Era visível que importava mesmo para eles apenas aquele momento. Juntos. Doando o tempo um para o outro. Despidos da pressa cotidiana, da preocupação com seja lá o que fosse e até do mau humor matinal.

O que me encantou não foi o amor que aqueles dois aparentemente exalavam. Mas sim o fato de estarem inteiramente presentes naquele momento. Olhando um no olho do outro. Desfrutando do momento, de corpo e alma. Como a maioria de nós não costuma fazer durante o dia, pois sempre existe alguma coisa na nossa cabeça para a qual damos mais importância e para a qual doamos nosso tempo.

E assim, mantemos o corpo em um lugar e a mente em outro bem distante. Se eles se juntassem a nós, os desesperados pelo ônibus, teriam perdido aquele momento. Não quero entrar no clichê de “viva intensamente”, mas é basicamente isso. Pois você bem sabe, momentos passam. Talvez não percebemos quantos momentos poderíamos ter vivido de fato se não estivéssemos tão perdidos no emaranhado de planos para o dia ou para as horas seguintes. É, eles só estavam esperando o ônibus. Mas estavam ali de verdade, um para o outro. De corpo, de alma, de tudo.

Por Isadora Satie

Aquele da foto era você

Sorridente, agitado, sonhador. Agora você cresceu, e talvez não se pareça nada com ele. Talvez por isso seja tão complicada assim essa sua vida de adulto. Quando a gente cresce, começa a levar tudo muito a sério, às vezes, cegamente. Por isso penso que a gente tem mais é que cultivar aquela criança de antigamente. Aquela que não deixava escapar qualquer oportunidade de demonstrar um amor infinito pelos pais, através de um desenho abstrato e bem colorido ou de uma flor arrancada no quintal de casa. Aquela criança que desejava ter três profissões ao mesmo tempo, mas não por causa do dinheiro e sim, porque devia ser muito legal ser aquilo tudo junto.

Aquela que acumulava os sonhos e os planos mais malucos, e que nunca perderia a esperança de que um dia pudesse realizar um por um. Aquela criança que mesmo que tivesse apenas um amigo, continuaria a ser a criança mais feliz do mundo, pois sentia que se fosse algo verdadeiro, um bastaria. E por tal motivo, sabia exatamente como se cultivar uma amizade. Aquela criança que naturalmente olhava para o mundo sem o preconceito na mente, o julgamento nas palavras ou maldade no coração. Aquela pessoinha simples, espontânea e feliz porque... Ah, porque sim! Criança não precisa justificar tudo o que faz, tudo o que é pois, convenhamos, elas fazem o que sentem vontade, são o que são, querem ir atrás do faz elas sorrirem, não se omitem quando se trata de demonstrar amor e, claro, são extremamente sinceras!

Eu sei que de repente a vida muda de uma forma assustadora. Ser adulto é um negócio difícil, sinistro no começo. As responsabilidades parecem brotar a cada minuto, as cobranças tornam-se doses extras, a pressão é grande demais. A gente amadurece e, por consequência, acaba mudando. Mas, quem sabe, se cultivarmos certas características, se recuperarmos certos valores que eram presentes na nossa infância, as coisas fiquem mais leves. Quem sabe, se formos mais como éramos antes, tudo fique menos complicado. Afinal, de qualquer forma, aquela criança da foto ainda é você, o importante é fazer com que ela não se perca no tempo.


Por Isadora Satie
Sim, eu era quase igual àquela ali da foto.