terça-feira, 28 de outubro de 2014

Vício

Eu comecei devagar, de mansinho.

Ninguém havia me avisado que ela viciava. Antes mesmo que eu me desse conta, comecei a usá-la todos os dias. Ninguém havia me falado que meu corpo e minha própria mente ficariam assim, ávidos por ela. Não importa a ocasião, o lugar ou o que quer que seja sempre há um jeito de mantê-la comigo.

Eu sempre dou um jeito.

Nos momentos em que ela se faz ausente, minhas pernas como as de alguém que sofre de ansiedade, não param de balançar. Minhas mãos precisam encontrar algum lugar pra batucar. Meus ouvidos não aguentam o som caótico da multidão, ou o silêncio pesado da solidão. Mas quando ela se faz presente, circula lentamente por veias e artérias. Meus pelos arrepiam e se retorcem, um por um. Meus olhos aos poucos se fecham e em meu rosto surge um sorriso preguiçoso e involuntário.

Ela faz com que eu vá embora daqui por um instante e de repente volte. Viajo, sem apegos, para lugares que nem os sonhos mais surreais e desvairados me transportam. Ela me arranca da monotonia rotineira, das raízes dessa realidade. Não é fatal, é apenas viciante. A verdade é que ela me salva.

No momento, meu cérebro não funciona como deveria. Meu corpo se move sem que eu pense. Espasmos contínuos surgem, por causa do consumo exagerado. É incrível como ela me toma em poucos segundos. Uma mescla de medo e prazer, essa é a sensação. Medo de não ser capaz de parar. Prazer por me sentir em outra dimensão. Ela faz de tudo. Ela consegue afundar qualquer um no buraco da melancolia dos dias ruins e multiplicar a euforia dos dias bons.

Assim eu a consumo, ou ela me consome.

Não pense que ela prejudica o coração, faz mal ao cérebro ou estraga os pulmões. Meus ouvidos são os únicos dignos de pena, é o que dizem. Embora ela tenha o poder de preencher o espaço como fumaça, não falo de droga. Eu é que chamo de vício o que muitos por aí, chamam de música.

Por Isadora Satie

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