quarta-feira, 26 de julho de 2017

22 de julho, sábado, Florianópolis.

Por Isadora Satie

Saí de casa no modo automático. Peguei o ônibus até o centro da cidade. E de lá, peguei outro ônibus. Sentei num banco e não sei por que quis mudar de lugar de repente. Escolhi sentar do lado de um cara com cabelo grande e cacheado que tagarelava com as amigas que sentavam nos bancos de trás.

Ele devia ter seus vinte e poucos anos, mas parecia uma criança quando vê algo pela primeira vez. Com as mãos apoiadas na janela do ônibus e o rosto quase colado no vidro ele exclamou pausadamente:

OLHA-ESSE-SOL-BATENDO-NA-ÁGUA!

Com a fala carregada de sotaque paulista, continuou: “Aqui é uma Ilha mesmo né? Pensei que fosse mentira!”.

Sem 3G e sem fones de ouvido, eu não tinha muito o que fazer. Estiquei meu pescoço e olhei através da janela. E não é que a vista tava bonita mesmo? Céu todinho azul, mar que refletia o brilho intenso do sol. De repente, me vi igual a ele. Turista, só que da minha própria cidade. Admirando o que mais parecia uma pintura! O tipo de foto que não precisa de filtro, sabe?

Em momentos assim, me pergunto: Será que estamos correndo tanto, que não paramos pra olhar, olhar de verdade, ao nosso redor? Que pressa é essa que nos deixa tão cegos, insatisfeitos e mergulhados nessa ansiedade epidêmica? O foco é a hora seguinte. A semana que vem. O mês que vem. O ano que vem. Que ninguém garante se realmente vem!

Que mania chata essa de não deixar o amanhã pra amanhã. Né?

Sem querer, aquele cara me puxou de volta pro momento que estava passando bem na minha frente, e eu não estava vivendo. Foi um dos melhores favores que um desconhecido já me fez. Afinal viver não é sobre correr o tempo todo. É sobre frear também.

Entender que é importante apreciar onde estamos, com quem estamos, do modo que estamos. Aquele papo de sempre do ‘’aqui e agora”.

Olhei pela janela durante todo o resto da viagem. Sorri. Agradeci. E aí me senti satisfeita, e completa. Só porque eu estava ali, entregue de corpo e alma, naquele presente tão cotidiano, tão simples, mas tão bonito.

sábado, 15 de julho de 2017

A minha São Paulo de 6 dias

Por Isadora Satie


Os prédios saltam aos olhos de quem chega pela primeira vez. Eles arranham o céu. E são repletos de quadradinhos. Durante a noite, eu os observava e ficava pensando em quantas histórias cada quadradinho acomoda, em quantos sonhos cabem dentro de cada um.

Na rua, posei de turista. Olho que se arregalava, brilhava e admirava. Caminhada que, de tão lenta, quase parava. Mas era só a minha. O ritmo é como dizem: correria! Tem gente que sai de casa e vira velocista, desvia das pessoas como se fossem obstáculos e, com maestria, ultrapassa a linha de chegada que fica na porta do metrô. Ufa!

Gente acelerada, apressada, e sempre ligada. Lembre-se de deixar a esquerda livre e não dar mole com o celular, viu?

Um dia me disseram que a cidade é cinza. É cinza, sim. Mas só das nuvens. De perto, ela é cheia das cores. As paredes de lá são papel pra poesia, são espaço pra desabafo, são como tela pros artistas mais ousados. Ela tem som de buzina, conversa, sirene e andança. Ela fica quieta, mas nunca em silêncio.

Como o próprio tempo, ela não para!

Tem gente normal, gente louca, gente mais louca ainda. Tem gente que faz da calçada a própria cama, da rua o próprio lar. Tem gente que te vê, e logo te encara. Tem gente que te vê, e timidamente sorri. Tem gente que te vê, mas não te vê.

Mas isso na minha cidade também tem, aos montes.

É uma terra de contrastes. Mescla de etnia, sotaque, classe e estilo. Tem branco, tem preto, tem amarelo. Tem misturado, tipo assim, como eu. Eu não falei que a cidade é colorida? Pois bem, ela é!

É correria, loucura, o caos! Cidade tão maluca que de algum jeito deixou meu coração em paz. Vai entender! É sempre bom estar em casa, voltar pra cidade que chamo de minha. Mas é maravilhoso partir pro que não se conhece.

Porque o desconhecido também merece o nosso olhar, o nosso visitar e, quem sabe, até o nosso ficar.