quinta-feira, 22 de maio de 2014

Que mude!

"Nada existe de permanente a não ser a mudança." Heráclito


Entenda, encare ou engula: O mundo gira, nada fica no mesmo lugar. Você querendo ou não. E tem outra coisa, quem disse que precisa continuar tudo igual? No mesmo lugar? Para sempre? Ah, que chatice, que tédio... Mas talvez isso seja inerente ao ser humano. Temos um medo constante de mudanças, por vezes evitamos sair da nossa zona de conforto e fazer diferente ou até deixar que a vida faça-nos diferentes.

Que mude! Que haja mudanças. Mas que o que é bom, fique melhor. Que o pouco vire muito ou, pelo menos, suficiente. Que qualquer ódio desapareça, se não, que se transforme em amor. Que o velho seja trocado pelo novo. Que o que não serve mais, seja descartado. Que o passado não tome mais o lugar do presente.

Enfim, que mude. Mude de opinião. De pensamento. De aparência. De emprego. De casa. De paixão – por que não?. De planos. De cor preferida. De hábitos. De sonhos. Se aí dentro a coragem de mudar ainda não foi aflorada, tudo bem. De qualquer jeito, o tempo, o destino, o mundo impõe mudanças à sua vida. Sofrer com elas, provocá-las ou adaptar-se a elas é sua opção. Eu, particularmente "prefiro ser essa metamorfose ambulante"... E você?

Por Isadora Satie

Que dê muita “merda” e que se “quebre a perna”!

Geralmente eu faço o sinal da cruz e uma oração. Tá, três sinais da cruz. Porém, não há nada que me faça ficar tranquila entre aquelas escuras coxias. O frio na barriga é agoniante. Você alonga, pula, aquece, repete aquele oito complicado da coreografia, aquele passo que foi mudado de última hora. Sem contar que às vezes acontece de você se desesperar por ter esquecido aquela parte... Que tem aquele passo lá, que... É pra esquerda né? Ou pra direita? É como uma breve amnésia por causa do nervosismo. Mas é bom, sabia? Muito bom até.

Nada se compara à sensação de estar lá, quase de frente para todo aquele público imenso, onde sua mãe pode estar já cheia de orgulho ou seu amigo, roendo as unhas por você. E aí você coloca os pés no palco, é agora! Que dê muita “merda” e que se “quebre a perna”! Na coxia, você abandona todas as preocupações de hoje, de amanhã e de depois de amanhã. Inconscientemente, acaba indo para o palco sem esses apegos cotidianos. É que lá, você não precisa de nada além de luz e som. Sua dança, coreografada ou improvisada, automaticamente vem. Seus sentimentos ficam demasiadamente expostos. Impossível traduzi-los. Mas, acredite, quem faz parte da plateia, vê que emoções transbordam sobre aquele tablado.

Embora você, muitas vezes, tenha que interpretar, há muito da sua própria essência naquele momento. De repente algum conhecido seu, como se não lembrasse que a pessoa da cadeira vizinha possui ouvidos, berra seu nome. Mais de uma vez até. Você, sem querer, deixa escapar um sorriso meio bobo, como se dissesse um ‘’obrigado’’ apesar de não saber exatamente de que boca o seu nome saiu. Depois disso, é como se você recuperasse o fôlego e ganhasse um gás a mais para a próxima sequência.

É quase outra dimensão. Um estado de espírito único. É a hora de mostrar o que você sabe a quem tiver a boa vontade de assistir. Minutos parecem se esvair em segundos, porque lá você simplesmente faz algo pelo qual é apaixonado. A música acaba. Pronto! Você pode puxar o quanto de ar for necessário. A luz se apaga. Nenhuma música é mais gostosa de ouvir do que o clássico som dos aplausos. Ainda mais quando você sente que merece. Isso tudo aí não tem preço e é indescritível, por isso, paro por aqui.

Por Isadora Satie

terça-feira, 20 de maio de 2014

Desabafo

Ultimamente? Ando longe. Vagando por entre dúvidas, decepções. Decepções essas, completamente inesperadas. Sei que tudo passa, aliás, a vida é feita de fases, as quais possuem início, meio e fim. Não me julgue dramática, não pense que é exagero. Minha vontade mais recente é passar rápido, muito rápido por essa fase, acelerar os ponteiros do relógio, fazer os dias correrem, passar páginas sem lê-las até chegar à parte da história em que fica tudo bem.

Quanto às dúvidas... Afligem. Por estarem, certamente, sem respostas. Perguntas sobre o futuro, o depois, o simples amanhã. Em meio à realidade, as melhores expectativas parecem ter se ofuscado. Que bom que apenas parecem, pois dentro de mim, estão vivas, nítidas. Dúvidas... Muitas delas serão respondidas, outras eu sei que não. E quero acreditar que as decepções ainda se transformarão em uma respiração funda e um: “ainda bem que tudo aquilo acabou.” Não me julgo incapaz, apenas insuficiente. Realmente, não posso fazer quase nada. Apenas espero por quem resolverá tudo. O nome dele? Deus.

Por Isadora Satie

Admito

Hoje comecei a achar que não é pra mim esse negócio de amor
E essas coisas que trepidam o coração, que curam e provocam dor
Tô começando a criar um certo pavor, temor
Isso aí que apelidam de paixão, pra mim, perdeu a cor
Drama? Talvez... Ah, até acho que não
É que, por mais sucinto, meu sentimento no final é todo em vão
Decido desistir, então
Trancar por tempo indeterminado esse coração
Até alguém por aí aparecer
E roubá-lo de mim, sem que alguém possa ver
Mas que o roube, por simplesmente merecer
Exijo que não o fira, tampouco o faça sofrer
É... Não desisto, apenas espero
Não como antes, juro, estou sendo sincero
Vou parar por aqui, só mais algumas linhas e eu me desespero
Ei, amor! Vou esperar. Porque amar, admito, eu quero

Por Isadora Satie

Sedenta

É que eu, admito, tenho meus lados, minhas camadas e talvez contradições.

Hoje tenho fome do teu abraço protetor, das tuas palavras mais doces, um breve afago que seja. Amanhã, estarei sedenta pelo teu beijo mais abrupto, nutrido por desejo, pelos teus toques mais ousados, desaforados. 

Por ti, fisicamente, o mais próximo possível. Por aquele teu olhar que rapidamente escancara segundas e terceiras intenções. No fundo, você aqui, já basta. Pouco importa essa oscilação toda de vontades afoitas. 

Aqui, de qualquer jeito, com qualquer cara, em qualquer dia, hoje ou amanhã. Eu falo sério, já basta.

Por Isadora Satie

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A vida não é poesia

Hoje me disseram que a vida não é poesia. No exato momento em que escutei, palavras para revidar não me vieram. Pois, desculpem-me os adeptos dos mais sábios versos, mas eu concordo. A vida não é rimada ou feita de versos. Ela não é boa como os parágrafos divagantes das prosas. Momentos tristes não têm a beleza de uma estrofe dominada pela tristeza. Essa vida aí é repleta de rabiscos que borracha alguma faz desvanecer, é perversa, racional demais, sem rimas, pesada, hostil. Mas, calma aí... Desculpem-me os extremos racionais, mas a vida desses poetas mundo afora, anônimos ou não, torna-se muito mais viva, eu sei, quando um papel tem as linhas preenchidas por palavras. Palavras por vezes desconexas, melancólicas, digressivas, apaixonadas, positivas, sentimentais. Pela mais sucinta escrita que nos represente e faz de nós, meros humanos nessa vida dura e louca, humanos que amenizam suas dores, exaltam alegrias, alimentam sonhos, descarregam emoções, apenas com poesia. Está certo, a vida não é poesia, mas eu só consigo viver porque esta existe. 

Por Isadora Satie

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Pode chegar mais perto...

Bem perto. Vem cá e me dê um daqueles seus abraços. Assim você pode me proteger. Deite aqui, do meu lado. Converse comigo. Divida comigo todos os seus sonhos desde os mais simples até os mais loucos, que eu farei de tudo para realizar ao menos um deles. Sinta-se a vontade para desabafar. Caso existam angústias aí dentro, deixe-me fazer com que elas desvaneçam. Conte-me seus segredos, dos mais sombrios até os mais bobos. Prometo guardá-los comigo para sempre, e me esforçar para não rir dos mais tolos. Diga-me as músicas preferidas da sua lista, aí direi as minhas e depois podemos decidir qual delas será a nossa música. Que tal?

Dança comigo? Mesmo que você seja extremamente leigo nisso, mesmo que seus pés esbarrem violentamente nos meus, não se preocupe. Se precisar, eu ensino a você o que sei. Quanto ao que eu não sei, aprendemos juntos. Nunca ouse culpar a si mesmo por não ser o cara perfeito, saiba que nunca desejei perfeição em ninguém. E de certos defeitos seus, até que eu gosto. Deixe o tempo passar pra que eu comece a estranhar suas manias, depois, você bem sabe, me acostumo a todas elas. Espero que você se acostume às minhas mil manias também...

Seja comigo simplesmente o que você é. Faça com que hoje, eu te conheça por completo. Mas que amanhã, eu seja surpreendida. E depois de amanhã, também. E deixe. Deixe o destino comandar tudo, deixe os nossos corações ficarem mais próximos a cada dia. Até que o ritmo das nossas batidas se igualem. Embora eu aprecie literatura e essa coisa toda, não precisa me recitar poesias de vez em quando. Por mais que nos amemos todos os dias, não quero ouvir um "eu te amo" a cada segundo. Mesmo que certos gestos vindos de você possam ter um belo significado, eu não te peço rosas e nenhum outro tipo de flor em datas especiais.

Apenas permita a reciprocidade desses meus sentimentos. Apenas olhe para mim, bem no fundo dos meus olhos, a ponto de adivinhar o que se passa no fundo do meu coração. Segure minha mão como se nunca pretendesse largar. Esteja presente, de corpo e alma, quando estivermos só eu e você. Não importa onde, como e quando, faça-me completamente, plenamente e somente sua. E depois disso, continue aqui comigo. Sim, bem perto. Depois você pode vir aqui, para que eu peça um daqueles seus abraços.

Por Isadora Satie

Louca

Não sei quanto a você, mas eu prefiro ser chamada de louca. Porque louco é quem, obviamente, não é normal, é fora do padrão. É quem faz o que quer, arrisca sem medo, mergulha de cabeça onde a felicidade se encontra. E o padrão das pessoas de hoje, parece que é pensar que a vida dura pra sempre, só que assim a gente deixa tudo pra depois, pra daqui uns anos, abusando do “talvez”, “quem sabe” ou “um dia”. E os sonhos lá permanecem, num futuro que nunca chega.

O padrão é ter medo de arriscar, de fazer diferente, de correr atrás daquele sonho grande que a gente tem desde a infância, daquela vontade louca que surgiu na adolescência. Tem muita gente feliz de verdade por aí que é idolatrada, parece sortuda demais e é até chamada de louca. São apenas pessoas que, mesmo sem garantia de êxito, não deixaram pra depois. Apenas pessoas que não estavam a fim de sonhar pela vida toda, cientes de que a mesma é efêmera, incerta, e de que esse “depois” pode nem chegar. Bom se todo mundo fosse louco assim...

Por Isadora Satie

Os do contra

Já faz parte da minha rotina eu me atrasar para o trabalho. Isso faz com que eu fique apressada e com uma agonia que, no final, não adianta em nada. Chego no terminal e espero meu segundo ônibus do dia. Em uma dessas manhãs, sentada em um banco qualquer, deparei-me com uma cena me fez pensar. Da minha plataforma, consegui ver a fila gigante que se formava na plataforma seguinte.

Enxerguei um bando de gente apressada e, talvez, atrasada como eu. De repente, reparei que lá havia um casal de jovens, um tanto diferente, meio alternativo, digamos. Ela tinha cabelos avermelhados, curtos. Ele cabelos castanhos, cacheados. A pele dos dois contrastava bastante. Vestiam roupas bem coloridas, talvez por isso tenham me chamado a atenção. Ou talvez porque pareciam estar em outra dimensão.

Possuíam expressões diferentes das outras pessoas da fila. E por mais que o ônibus estivesse atrasado – como sempre – eles estavam tranquilos. Eram jovens, de uns vinte e poucos anos. E convenhamos, os jovens de hoje vivem com a cabeça fervilhando. Mas eles estavam despreocupadíssimos. Suas mochilas estavam no chão, conversavam, riam um da cara do outro, beijavam-se. Embora não fizessem o tipo de casal meigo, meloso, ou coisa assim, transmitiam algo bom. Por isso fiquei feliz quando vi a cena que os dois protagonizavam. É como se fosse uma daquelas boas passagens dos filmes de comédia romântica, e eu fizesse parte da figuração, junto com todas as outras pessoas. Por isso penso que eles estavam em outra dimensão.

Eles podiam ter se conhecido na noite passada, em uma balada qualquer, beberam um pouco mais do que deviam, acabaram ficando um com o outro e, por fim, lá estavam. Ou tiveram uma longa história de amizade, desde a época do colégio, até que num belo dia, um deles, com o coração angustiado, resolveu assumir a paixão e, por fim, lá estavam. Não importa que tipo de casal eles representavam. Era visível que importava mesmo para eles apenas aquele momento. Juntos. Doando o tempo um para o outro. Despidos da pressa cotidiana, da preocupação com seja lá o que fosse e até do mau humor matinal.

O que me encantou não foi o amor que aqueles dois aparentemente exalavam. Mas sim o fato de estarem inteiramente presentes naquele momento. Olhando um no olho do outro. Desfrutando do momento, de corpo e alma. Como a maioria de nós não costuma fazer durante o dia, pois sempre existe alguma coisa na nossa cabeça para a qual damos mais importância e para a qual doamos nosso tempo.

E assim, mantemos o corpo em um lugar e a mente em outro bem distante. Se eles se juntassem a nós, os desesperados pelo ônibus, teriam perdido aquele momento. Não quero entrar no clichê de “viva intensamente”, mas é basicamente isso. Pois você bem sabe, momentos passam. Talvez não percebemos quantos momentos poderíamos ter vivido de fato se não estivéssemos tão perdidos no emaranhado de planos para o dia ou para as horas seguintes. É, eles só estavam esperando o ônibus. Mas estavam ali de verdade, um para o outro. De corpo, de alma, de tudo.

Por Isadora Satie

Aquele da foto era você

Sorridente, agitado, sonhador. Agora você cresceu, e talvez não se pareça nada com ele. Talvez por isso seja tão complicada assim essa sua vida de adulto. Quando a gente cresce, começa a levar tudo muito a sério, às vezes, cegamente. Por isso penso que a gente tem mais é que cultivar aquela criança de antigamente. Aquela que não deixava escapar qualquer oportunidade de demonstrar um amor infinito pelos pais, através de um desenho abstrato e bem colorido ou de uma flor arrancada no quintal de casa. Aquela criança que desejava ter três profissões ao mesmo tempo, mas não por causa do dinheiro e sim, porque devia ser muito legal ser aquilo tudo junto.

Aquela que acumulava os sonhos e os planos mais malucos, e que nunca perderia a esperança de que um dia pudesse realizar um por um. Aquela criança que mesmo que tivesse apenas um amigo, continuaria a ser a criança mais feliz do mundo, pois sentia que se fosse algo verdadeiro, um bastaria. E por tal motivo, sabia exatamente como se cultivar uma amizade. Aquela criança que naturalmente olhava para o mundo sem o preconceito na mente, o julgamento nas palavras ou maldade no coração. Aquela pessoinha simples, espontânea e feliz porque... Ah, porque sim! Criança não precisa justificar tudo o que faz, tudo o que é pois, convenhamos, elas fazem o que sentem vontade, são o que são, querem ir atrás do faz elas sorrirem, não se omitem quando se trata de demonstrar amor e, claro, são extremamente sinceras!

Eu sei que de repente a vida muda de uma forma assustadora. Ser adulto é um negócio difícil, sinistro no começo. As responsabilidades parecem brotar a cada minuto, as cobranças tornam-se doses extras, a pressão é grande demais. A gente amadurece e, por consequência, acaba mudando. Mas, quem sabe, se cultivarmos certas características, se recuperarmos certos valores que eram presentes na nossa infância, as coisas fiquem mais leves. Quem sabe, se formos mais como éramos antes, tudo fique menos complicado. Afinal, de qualquer forma, aquela criança da foto ainda é você, o importante é fazer com que ela não se perca no tempo.


Por Isadora Satie
Sim, eu era quase igual àquela ali da foto.