quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Lágrimas desconhecidas

Por Isadora Satie

Ontem o dia amanheceu perfeito. Sol e céu azul. Acordei bem, sem meu típico mau humor matinal. Saí de casa e caminhei até o ponto de ônibus, pensando que nada estragaria meu dia e que todos estariam radiantes, como eu.

Entrei no ônibus e segui até os últimos bancos. Com um sorriso, pedi licença e sentei ao lado de uma desconhecida. "Que mulher antipática!", foi o que pensei no momento. Ela nem me ouviu, sequer olhou na minha cara. Eu estava invisível, conclui. Com mais calma, quando minha indignação sumiu, olhei para ela e percebi os fones que estavam em seus ouvidos e seu olhar perdido, vagando pelas paisagens borradas pela velocidade do ônibus. O vento que entrava pela janela era um tanto violento, mas ela pouco se importava com seus cabelos que ficavam mais embaraçados e bagunçados.

Eu não estava invisível. Ela que não estava ali.

Seu olhar foi ficando mais desolado. Até que seus olhos começaram a se encher de água. Consegui perceber o quanto ela se esforçava para que nenhuma gota escorresse pelo seu rosto. Foi mais forte que ela. A primeira gota d’água salgada passeou lentamente pelo seu rosto. Assim foi com a segunda e todas as outras. Ela desmoronou.

Ali estava eu, de mãos atadas.

Pensei em perguntar se estava tudo bem, mas seria estupidez da minha parte. Era óbvio que não estava, seu mundo desabava ali mesmo. Queria poder abraçá-la, mas era a primeira vez que a tinha visto na vida. Queria até poder desligar a música que tocava em seus fones. Talvez a música tivesse um arranjo melancólico e uma letra tão triste, capazes de fazer qualquer um chorar. Mas não se tratava disso.

Ao meu lado, ela sofria em silêncio. Aquela cena acabou com a minha manhã. Era como se eu conseguisse sentir a dor daquela moça. Ela era jovem, do tipo que aparenta idade inferior à verdadeira. Vestia roupas simples, mas não precisava de nada extravagante para ficar mais bonita. Tinha cabelos castanhos e curtos e feições admiráveis. E os olhos azuis, porém encharcados.

Será que um homem havia tido coragem de magoá-la? O coração dela devia estar em pedaços, o amor que ela sentia por ele talvez não tenha sido recíproco e a decepção foi tão grande que a dor transbordava. Ou será que havia brigado com alguém antes de entrar naquele ônibus? Ela também poderia ter recentemente perdido algum familiar ou algum amigo. Poderia até ter enterrado, dias atrás, o cãozinho que a acompanhava desde a adolescência. Seriam problemas na faculdade, no trabalho?

Minha vontade era de dizer a ela que tudo aquilo mais cedo ou mais tarde, passaria. Embora tudo isso seja ridiculamente clichê. Eu diria que chorar por um homem que possui uma pedra no lugar do coração, é desperdício de tempo. Que a esperança nas pessoas não deve morrer, apesar de tudo. Que brigas acontecem, mas o perdão é sempre bem-vindo. Que perder uma pessoa ou até um cão, faz com que a saudade nos corroa e que os dias percam o colorido por tempo indefinido, mas que morte é uma das partes da vida. Diria que problemas nunca são eternos, eles apenas nos fazem uma visita rápida e logo se despedem.

Eu repetiria: tudo passa. Pois a vida é sacana mesmo, incerta, imprevisível, repleta de desequilíbrios, choros e sorrisos. Por fim, eu a abraçaria. Se fosse qualquer uma daquelas coisas que especulei, diria que sei exatamente como é. Pois eu realmente sei.

“Licença?”, ela praticamente sussurrou pra mim. Levantei rapidamente para deixá-la passar e cabisbaixa, com os olhos vermelhos me deu um sorriso tímido de agradecimento.

Eu só espero que alguém tenha atravessado o caminho dela e oferecido um abraço. Ou dito qualquer coisa para amenizar a dor daquela moça, tão bonita para deixar a tristeza dominá-la. Ou espero que ela tenha levantado a cabeça, olhado para o céu e percebido que seus olhos combinariam muito mais com o dia, se lágrimas não existissem neles.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Vício

Eu comecei devagar, de mansinho.

Ninguém havia me avisado que ela viciava. Antes mesmo que eu me desse conta, comecei a usá-la todos os dias. Ninguém havia me falado que meu corpo e minha própria mente ficariam assim, ávidos por ela. Não importa a ocasião, o lugar ou o que quer que seja sempre há um jeito de mantê-la comigo.

Eu sempre dou um jeito.

Nos momentos em que ela se faz ausente, minhas pernas como as de alguém que sofre de ansiedade, não param de balançar. Minhas mãos precisam encontrar algum lugar pra batucar. Meus ouvidos não aguentam o som caótico da multidão, ou o silêncio pesado da solidão. Mas quando ela se faz presente, circula lentamente por veias e artérias. Meus pelos arrepiam e se retorcem, um por um. Meus olhos aos poucos se fecham e em meu rosto surge um sorriso preguiçoso e involuntário.

Ela faz com que eu vá embora daqui por um instante e de repente volte. Viajo, sem apegos, para lugares que nem os sonhos mais surreais e desvairados me transportam. Ela me arranca da monotonia rotineira, das raízes dessa realidade. Não é fatal, é apenas viciante. A verdade é que ela me salva.

No momento, meu cérebro não funciona como deveria. Meu corpo se move sem que eu pense. Espasmos contínuos surgem, por causa do consumo exagerado. É incrível como ela me toma em poucos segundos. Uma mescla de medo e prazer, essa é a sensação. Medo de não ser capaz de parar. Prazer por me sentir em outra dimensão. Ela faz de tudo. Ela consegue afundar qualquer um no buraco da melancolia dos dias ruins e multiplicar a euforia dos dias bons.

Assim eu a consumo, ou ela me consome.

Não pense que ela prejudica o coração, faz mal ao cérebro ou estraga os pulmões. Meus ouvidos são os únicos dignos de pena, é o que dizem. Embora ela tenha o poder de preencher o espaço como fumaça, não falo de droga. Eu é que chamo de vício o que muitos por aí, chamam de música.

Por Isadora Satie

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Um instante

Existem dias em que a vontade mais forte é a de não ficar por aqui. Fugir de casa e talvez desse mundo. Mas eu sempre acabo ficando.

O que eu faço é escolher uma boa música, colocá-la no último volume, e me mover de acordo com cada detalhe da melodia. O corpo vai sozinho e aos poucos, deixo tudo pra trás. É minha saída de emergência para os incêndios que a vida provoca. E de incêndios, a vida de qualquer um é cheia. Por isso, parei de me perguntar se o que vivo seria uma loucura exclusiva.

Se é loucura, é de todos.

Dias atrás, uma amiga me disse que frequentemente sai correndo pela porta de casa, com o skate na mão. Segundo ela, o som que as rodinhas do skate fazem no asfalto substitui o barulho alto e incômodo das típicas brigas de seus pais.

O vento em seu rosto torna-a capaz de carregar consigo toda a confusão que insiste em habitar sua mente. As lágrimas podem não cessar, mas logo secam ou ficam pelo caminho. Ela deixa pelo caminho, até a própria vida.

Pelo menos por um instante.

Uma vez conheci um homem que dizia gostar de pescaria. Ele não pescava peixe algum. Quando fisgava algo, poderia vir qualquer coisa, mas jamais um peixe. Ele pouco se importava. O que verdadeiramente apreciava era aquele momento solitário, que nada tinha de triste.

Ficar por horas, sentado, observando a água e a paisagem o fazia esquecer das reclamações dos filhos, do casamento complicado, das buzinas inconvenientes, da bagunça da cidade. Esquecer do caos da própria vida, pelo menos por um instante.

Às vezes ouço minha mãe cantarolar pela casa. Ela me contou que quando jovem, até pensou em seguir carreira na música, mas a vida a levou para outros caminhos. De repente a vejo com o olhar vago, cantarolando refrões, trocando algumas palavras da música, mas mesmo assim é bom de ouvir.

Penso que em momentos como esse, ela sequer me enxerga. Então, deixo ela ali, na outra dimensão que ela mesma criou. Sinto que assim ela esquece da loucura que é passar dias inteiros em um hospital, correndo de um lado para o outro a fim de salvar vidas. E desse jeito, cantando as músicas de um CD antigo, ela salva a própria vida, pelo menos por um instante.

Uma válvula de escape. Um refúgio. Uma vez por dia, por semana.

Uma vez na vida.

Viver com os pés no chão, não impede alguém de querer voar, só para não ter que dar com a cara no chão. Bom seria se tivéssemos umas férias da vida. O jeito é dar espaço a si mesmo. Deixar pra mais tarde essa história de bater de frente com a vida. Encontrar um momento para respirar.

Fugir da realidade não é crime. Não é covardia. É sede de liberdade.

É ser livre de si mesmo. Pelo menos por um instante, que seja.

Por Isadora Satie