Por Isadora Satie
Ontem o dia amanheceu perfeito. Sol e céu azul. Acordei bem, sem meu típico mau humor matinal. Saí de casa e caminhei até o ponto de ônibus, pensando que nada estragaria meu dia e que todos estariam radiantes, como eu.
Entrei no ônibus e segui até os últimos bancos. Com um sorriso, pedi licença e sentei ao lado de uma desconhecida. "Que mulher antipática!", foi o que pensei no momento. Ela nem me ouviu, sequer olhou na minha cara. Eu estava invisível, conclui. Com mais calma, quando minha indignação sumiu, olhei para ela e percebi os fones que estavam em seus ouvidos e seu olhar perdido, vagando pelas paisagens borradas pela velocidade do ônibus. O vento que entrava pela janela era um tanto violento, mas ela pouco se importava com seus cabelos que ficavam mais embaraçados e bagunçados.
Eu não estava invisível. Ela que não estava ali.
Seu olhar foi ficando mais desolado. Até que seus olhos começaram a se encher de água. Consegui perceber o quanto ela se esforçava para que nenhuma gota escorresse pelo seu rosto. Foi mais forte que ela. A primeira gota d’água salgada passeou lentamente pelo seu rosto. Assim foi com a segunda e todas as outras. Ela desmoronou.
Ali estava eu, de mãos atadas.
Pensei em perguntar se estava tudo bem, mas seria estupidez da minha parte. Era óbvio que não estava, seu mundo desabava ali mesmo. Queria poder abraçá-la, mas era a primeira vez que a tinha visto na vida. Queria até poder desligar a música que tocava em seus fones. Talvez a música tivesse um arranjo melancólico e uma letra tão triste, capazes de fazer qualquer um chorar. Mas não se tratava disso.
Ao meu lado, ela sofria em silêncio. Aquela cena acabou com a minha manhã. Era como se eu conseguisse sentir a dor daquela moça. Ela era jovem, do tipo que aparenta idade inferior à verdadeira. Vestia roupas simples, mas não precisava de nada extravagante para ficar mais bonita. Tinha cabelos castanhos e curtos e feições admiráveis. E os olhos azuis, porém encharcados.
Será que um homem havia tido coragem de magoá-la? O coração dela devia estar em pedaços, o amor que ela sentia por ele talvez não tenha sido recíproco e a decepção foi tão grande que a dor transbordava. Ou será que havia brigado com alguém antes de entrar naquele ônibus? Ela também poderia ter recentemente perdido algum familiar ou algum amigo. Poderia até ter enterrado, dias atrás, o cãozinho que a acompanhava desde a adolescência. Seriam problemas na faculdade, no trabalho?
Minha vontade era de dizer a ela que tudo aquilo mais cedo ou mais tarde, passaria. Embora tudo isso seja ridiculamente clichê. Eu diria que chorar por um homem que possui uma pedra no lugar do coração, é desperdício de tempo. Que a esperança nas pessoas não deve morrer, apesar de tudo. Que brigas acontecem, mas o perdão é sempre bem-vindo. Que perder uma pessoa ou até um cão, faz com que a saudade nos corroa e que os dias percam o colorido por tempo indefinido, mas que morte é uma das partes da vida. Diria que problemas nunca são eternos, eles apenas nos fazem uma visita rápida e logo se despedem.
Eu repetiria: tudo passa. Pois a vida é sacana mesmo, incerta, imprevisível, repleta de desequilíbrios, choros e sorrisos. Por fim, eu a abraçaria. Se fosse qualquer uma daquelas coisas que especulei, diria que sei exatamente como é. Pois eu realmente sei.
“Licença?”, ela praticamente sussurrou pra mim. Levantei rapidamente para deixá-la passar e cabisbaixa, com os olhos vermelhos me deu um sorriso tímido de agradecimento.
Eu só espero que alguém tenha atravessado o caminho dela e oferecido um abraço. Ou dito qualquer coisa para amenizar a dor daquela moça, tão bonita para deixar a tristeza dominá-la. Ou espero que ela tenha levantado a cabeça, olhado para o céu e percebido que seus olhos combinariam muito mais com o dia, se lágrimas não existissem neles.

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