quinta-feira, 3 de julho de 2014

Meu super-herói de antigamente


Ontem, meu primeiro dia de férias, resolvi dar um jeito no lugar mais bagunçado do mundo. Sim, o meu quarto. Comecei pela escrivaninha. Organizando umas coisas, descartando outras, encontrei um porta-retrato caído, com um pouco de cupim na madeira, maltratado pelo tempo, mas com uma fotografia que me provoca uma dorzinha a qual podemos chamar de saudade.

Nessa fotografia existem duas pessoinhas, com as roupas mais bonitas do guarda-roupa, sorridentes e muito parecidas. Eu e o cara mais chato do mundo inteiro. Eu e a segunda pessoa mais importante da minha vida. Eu e meu irmão. Não me recordo daquele dia, eu era muito pequena. Mas reconheço aqueles sorrisos meio avacalhados e exagerados de “mãe, tira logo essa foto, por favor!”. Ah, lembrei! Era meu aniversário. Obviamente, minha mãe precisava registrar cada detalhe. 

Em dias como esse, meu irmão sorria como se fosse ele quem sopraria as velinhas do meu bolo de morango. Era um dia feliz para os dois. Parecia que comemorávamos juntos e ainda acho que ele era quem fazia o pedido na hora de eu soprar as velinhas, até porque eu sempre me esqueço desse detalhe – a parte de comer é que importa. Mas era assim, desde sempre. Desde o momento em que eu nasci e minha mãe nos ensinou que irmãos devem se amar e dividir as coisas. Confesso que confundi o “dividir” com “estragar”. Muitos foram os controles de vídeo-game danificados, os bonecos de luta que se tornaram aleijados. Mesmo eu bancando a irmã mais nova e chata, ele era o irmão mais velho e protetor.

Nas férias de inverno e de verão, costumávamos andar muito de bicicleta na rua de lajotas da nossa casa antiga. Lembro que quando eu estava à procura de “aventura”, sentava no quadro da bicicleta do meu irmão, com ele a conduzindo. A velocidade me dava medo e por isso era divertido. Ai de mim se a mãe nos espiasse pela janela. Houve um dia em que perguntei “E se eu cair!?” aí ele disse “Aí tu cai em cima de mim e não se machuca”, e foi exatamente o que aconteceu. A bicicleta desequilibrou naquela maldita areia e caímos. O machucado dele foi feio, o meu não. 

Na mente me vem outro episódio, um tanto desesperador, em que eu me afoguei numa praia cujo apenas o nome faz minha mãe tremer. Eu em minha teimosia cotidiana, não queria voltar para casa de jeito nenhum. Por isso, permaneci no mar enquanto ele e meu pai já estavam quase na areia. Naquele momento, a correnteza era forte e me carregava aos poucos para o fundo. Meu pai ficou paralisado, enquanto meu irmão correu de volta para o mar, improvisando um nado todo desajeitado. Apenas consigo lembrar da água batendo violentamente em meu rosto, sentindo a alça do meu maiô sendo puxada pelas mãos de criança do meu irmão. Depois disso, terra firme! Cheguei à areia sã e salva, vomitando água salgada, com um bando de curiosos em volta.

Durante a infância, um dos meus maiores amores foi, definitivamente, o balanço que existia na escola em que eu estudava no jardim de infância. Mas era um balanço específico, o qual eu posso jurar que me levava até as nuvens. Naquela época, meu irmão era alto para a idade que tinha e, como se não bastasse, era um garoto gordinho. Pra mim, isso era um benefício. Pois lá havia um menino de nome estranho, inconveniente, que gostava de ocupar justamente o meu brinquedo preferido. Coitado do moleque. Meu irmão fazia cara de bravo, ameaçava um soco e ele saía correndo. Esse episódio se repetiu muitas vezes. E nessas muitas vezes eu fui feliz naquele brinquedo, com a ajuda do meu irmão.

Fico pensando que todo irmão mais velho deveria ser assim. Quase como um anjo ou um super-herói. Pois sentia que em situações de perigo, eu não sofreria se meu irmão estivesse por perto. Ele seria capaz de tudo para me ver bem. Insisto até o fim na história de que irmãos devem ser assim. Ligados um ao outro, como eu e ele sempre fomos. Afinal, viemos do mesmo lugar. Da mesma barriga. Dividimos a mesma mãe e o mesmo pai. Compartilhamos das mesmas feições. Às vezes, até das mesmas manias. Coincidentemente, das mesmas músicas preferidas. 

A única diferença é que ele chegou nesse mundo três anos e cinco meses antes de mim. Talvez porque Deus percebeu que ele seria mais forte e corajoso o suficiente para me proteger. Talvez porque estava escrito que durante a nossa adolescência nosso pai se tornaria um ser estranho e ausente, e por tal motivo ele teria que se tornar o homem da casa e, em certos momentos, um pai para mim.

Atualmente, nossa rotina não envolve bicicletas, balanços e, ainda bem, mares perigosos. Cada um tem uma rotina conturbada e diferente, que faz com que existam dias em que apenas trocamos um “boa noite”. Apesar disso, continuamos unidos de uma forma que só quem tem irmão é capaz de compreender. Mas, confesso, sinto saudades da infância, das dezenas de histórias que só eu e ele testemunhamos, dos muitos segredos que guardamos até hoje.

Por Isadora Satie