segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Enquanto o mundo girar

Por Isadora Satie

A dúvida que surge pela manhã tem sido a mesma: “Guarda-chuva, levar ou não levar? Eis a questão”. Quando penso que a chuva não virá, por causa do céu totalmente azul, ela vem.

Viver em Florianópolis exige que você se acostume com as gotículas de suor no início da tarde que serão substituídas por gotas geladas de chuva no fim da tarde. O clima muda, literalmente, de uma hora para outra. O tempo dessa cidade é tão louco, que previsões climáticas se tornaram tão duvidosas quanto o meu horóscopo.

É que horóscopos são estranhos. O do meu signo diz que taurinos costumam ser arredios às mudanças, suportando-as com dificuldade. Mas eu nunca fui capaz de confiar nessas coisas e um dos motivos é porque, na verdade, tenho gosto por mudanças. Ou quem sabe meu horóscopo esteja corretíssimo e eu que, por seguir caminho alternativo, mudei.

Certa vez, um cara chamado Heráclito disse que nada existe de permanente a não ser a mudança.

Tempos atrás, tudo o que se alterava me afligia. O medo dessa constante mutação das coisas me invadia e meu desejo era que tudo ficasse ali, paradinho, no mesmo lugar. Porém, em um belo dia, concordei com esse cara e decidi olhar as coisas por outra perspectiva.

Antes, minha maior certeza era que meu cabelo permaneceria intacto para sempre. Agora, os cachos são fios chapados. E a tesoura me fez dar adeus ao cabelo comprido. E ninguém garante que um dia a coloração negra dele se torne azul.

Desde que o mundo permaneça em seus movimentos elípticos, as coisas tendem a mudar, para melhor ou pior. Não entendo quem prefere resistir a tal verdade. Os dias perderiam a graça, se mudanças fossem inexistentes. Lembranças não nos dariam tanto prazer se a eternidade se aplicasse a todas as coisas. Porém, saudades não seriam tão cruéis e doloridas. E você não teria aquela vontade insana e repentina de voltar no tempo.


Bem, há sempre dois lados.

O que aprecio na mudança é o quanto ela nos faz crescer, se vista com bons olhos. Acredito que quem tem consciência dessa realidade desfruta com mais intensidade o que está em suas mãos, por ter dentro de si a certeza de que qualquer coisa se esvai. Qualquer coisa.

A capacidade que certas pessoas têm de lidar bem com essa contínua metamorfose de tudo é admirável. Abandonar alguma opinião, reformular um pensamento, radicalizar na aparência, arriscar um novo emprego, preferir outra cor, modificar um hábito, reescrever um sonho.

Corajosos, para mim, são os que mudam por conta própria em vez de se acomodar na ideia de que o tempo faz isso por nós. Embora o tempo seja mestre em alterar seja lá o que for.

Enfim, esse é o texto de hoje. Talvez amanhã eu apague tudo isto e escreva palavras completamente diferentes.