E eu juro que nunca serei monogâmica, amarei os dois para sempre. O que fazer se sou duplamente apaixonada? Eu duvido muito que o seu coração nunca tenha se alterado por duas pessoas diferentes, assim, ao mesmo tempo. É como eu me sinto, o tempo todo, todos os dias. Apesar dos pesares, eu não abro mão de nenhum dos dois.
Minha mãe não apoia. Meu irmão não dá a mínima. Minhas amigas não compreendem. Quanto aos dois em questão, cada um puxa para o seu lado, obviamente. Talvez um alimente certo ódio mortal em relação ao outro, mas já me acostumei a essa disputa cotidiana.
Confesso que há dias em que acordo com a incômoda sensação de estar sem rumo, em cima do muro. Numa noite, cheguei a sonhar que estava em um circo, mas não fazia parte da plateia. Vestindo um collant exageradamente brilhoso, estava na dúvida entre sorrir graciosamente para o público ou me concentrar para não cair subitamente, pois me encontrava em cima de uma longa corda que não parava de chacoalhar por nada desse mundo.
Mas que diabos eu fazia ali? Depois de acordar num susto, entendi que eu era aquilo que chamam de equilibrista. Sempre pensei que sonhos são capazes de refletir nossa realidade de alguma forma. Vivo me equilibrando entre dois amores, caminhando numa corda que não para de balançar um só minuto. Mas, no sonho eu lembro que meu coração trepidava constantemente pela adrenalina própria da situação, tão ruim e tão boa ao mesmo tempo.
Nesta realidade, a emoção me acompanha também. Há quem não me entenda, talvez você mesmo, aí sentado, não me entenda. Quer que eu explique por quê? A humanidade é acostumada com a história de que, nessa vida, existe um único amor capaz de nos trazer a almejada felicidade. Há quem venha me falar, com ar de sabedoria que, um dia, terei que escolher qual dos dois quero ao meu lado até que a morte nos separe.
Poucos acreditam quando digo que já pensei nisso ou que houve uma vez em que até tentei... Mas sabe qual o final da história? Não deu certo. Meus dias foram tão insuportáveis que me recuso a recordá-los. O fato é que um sacia necessidades que o outro é incapaz de saciar. Um está perto quando o outro está longe e cada um me completa de uma forma, como se fossem minhas duas metades. Simples assim.
Pretendo, futuramente, casar com os dois de uma só vez. Se eu puder ter apenas um esposo, o outro vira amante. E sim, estou ciente de que cultivar dois amores não é fácil... Eles conseguem me deixar maluca, desatinada, fora de todos os eixos possíveis. Mas é desse jeito que seduzem e me conquistam diariamente. Que pareça loucura ou equívoco de minha parte, mas quer saber? É assim que eu gosto.
Por Isadora Satie
Este é apenas um texto sobre o meu coração atualmente perdido entre duas paixões: o jornalismo e a dança. De qualquer forma, é nessa ''bigamia'' que se manifesta o meu eterno amor pela expressão. Isso é o que me importa.
