quinta-feira, 22 de maio de 2014

Que dê muita “merda” e que se “quebre a perna”!

Geralmente eu faço o sinal da cruz e uma oração. Tá, três sinais da cruz. Porém, não há nada que me faça ficar tranquila entre aquelas escuras coxias. O frio na barriga é agoniante. Você alonga, pula, aquece, repete aquele oito complicado da coreografia, aquele passo que foi mudado de última hora. Sem contar que às vezes acontece de você se desesperar por ter esquecido aquela parte... Que tem aquele passo lá, que... É pra esquerda né? Ou pra direita? É como uma breve amnésia por causa do nervosismo. Mas é bom, sabia? Muito bom até.

Nada se compara à sensação de estar lá, quase de frente para todo aquele público imenso, onde sua mãe pode estar já cheia de orgulho ou seu amigo, roendo as unhas por você. E aí você coloca os pés no palco, é agora! Que dê muita “merda” e que se “quebre a perna”! Na coxia, você abandona todas as preocupações de hoje, de amanhã e de depois de amanhã. Inconscientemente, acaba indo para o palco sem esses apegos cotidianos. É que lá, você não precisa de nada além de luz e som. Sua dança, coreografada ou improvisada, automaticamente vem. Seus sentimentos ficam demasiadamente expostos. Impossível traduzi-los. Mas, acredite, quem faz parte da plateia, vê que emoções transbordam sobre aquele tablado.

Embora você, muitas vezes, tenha que interpretar, há muito da sua própria essência naquele momento. De repente algum conhecido seu, como se não lembrasse que a pessoa da cadeira vizinha possui ouvidos, berra seu nome. Mais de uma vez até. Você, sem querer, deixa escapar um sorriso meio bobo, como se dissesse um ‘’obrigado’’ apesar de não saber exatamente de que boca o seu nome saiu. Depois disso, é como se você recuperasse o fôlego e ganhasse um gás a mais para a próxima sequência.

É quase outra dimensão. Um estado de espírito único. É a hora de mostrar o que você sabe a quem tiver a boa vontade de assistir. Minutos parecem se esvair em segundos, porque lá você simplesmente faz algo pelo qual é apaixonado. A música acaba. Pronto! Você pode puxar o quanto de ar for necessário. A luz se apaga. Nenhuma música é mais gostosa de ouvir do que o clássico som dos aplausos. Ainda mais quando você sente que merece. Isso tudo aí não tem preço e é indescritível, por isso, paro por aqui.

Por Isadora Satie

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