Já faz parte da minha rotina eu me atrasar para o trabalho. Isso faz com que eu fique apressada e com uma agonia que, no final, não adianta em nada. Chego no terminal e espero meu segundo ônibus do dia. Em uma dessas manhãs, sentada em um banco qualquer, deparei-me com uma cena me fez pensar. Da minha plataforma, consegui ver a fila gigante que se formava na plataforma seguinte.
Enxerguei um bando de gente apressada e, talvez, atrasada como eu. De repente, reparei que lá havia um casal de jovens, um tanto diferente, meio alternativo, digamos. Ela tinha cabelos avermelhados, curtos. Ele cabelos castanhos, cacheados. A pele dos dois contrastava bastante. Vestiam roupas bem coloridas, talvez por isso tenham me chamado a atenção. Ou talvez porque pareciam estar em outra dimensão.
Possuíam expressões diferentes das outras pessoas da fila. E por mais que o ônibus estivesse atrasado – como sempre – eles estavam tranquilos. Eram jovens, de uns vinte e poucos anos. E convenhamos, os jovens de hoje vivem com a cabeça fervilhando. Mas eles estavam despreocupadíssimos. Suas mochilas estavam no chão, conversavam, riam um da cara do outro, beijavam-se. Embora não fizessem o tipo de casal meigo, meloso, ou coisa assim, transmitiam algo bom. Por isso fiquei feliz quando vi a cena que os dois protagonizavam. É como se fosse uma daquelas boas passagens dos filmes de comédia romântica, e eu fizesse parte da figuração, junto com todas as outras pessoas. Por isso penso que eles estavam em outra dimensão.
Eles podiam ter se conhecido na noite passada, em uma balada qualquer, beberam um pouco mais do que deviam, acabaram ficando um com o outro e, por fim, lá estavam. Ou tiveram uma longa história de amizade, desde a época do colégio, até que num belo dia, um deles, com o coração angustiado, resolveu assumir a paixão e, por fim, lá estavam. Não importa que tipo de casal eles representavam. Era visível que importava mesmo para eles apenas aquele momento. Juntos. Doando o tempo um para o outro. Despidos da pressa cotidiana, da preocupação com seja lá o que fosse e até do mau humor matinal.
O que me encantou não foi o amor que aqueles dois aparentemente exalavam. Mas sim o fato de estarem inteiramente presentes naquele momento. Olhando um no olho do outro. Desfrutando do momento, de corpo e alma. Como a maioria de nós não costuma fazer durante o dia, pois sempre existe alguma coisa na nossa cabeça para a qual damos mais importância e para a qual doamos nosso tempo.
E assim, mantemos o corpo em um lugar e a mente em outro bem distante. Se eles se juntassem a nós, os desesperados pelo ônibus, teriam perdido aquele momento. Não quero entrar no clichê de “viva intensamente”, mas é basicamente isso. Pois você bem sabe, momentos passam. Talvez não percebemos quantos momentos poderíamos ter vivido de fato se não estivéssemos tão perdidos no emaranhado de planos para o dia ou para as horas seguintes. É, eles só estavam esperando o ônibus. Mas estavam ali de verdade, um para o outro. De corpo, de alma, de tudo.
Por Isadora Satie

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