segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Calor do momento

Vish... Esse assunto de novo?
Calor do jogo, claro. Acredito. A expressão dela ao encher os pulmões para insultar o goleiro é a prova concreta disso. Ninguém enxergou isso, não? Todo mundo ali deve ter chamado o cara de "macaco" no calor do jogo! Todo mundo faz insultos preconceituosos, em meio a uma multidão e dezenas de câmeras, por causa do bendito calor do jogo. Errar é humano, ainda mais no calor do jogo, gente!

Aos desavisados, estou sendo completamente irônica.

Dias atrás, havia prometido a mim mesma que não perderia tempo emitindo opinião sobre isso. Pois, sejamos francos. Nos dias de hoje, quem vê vantagem em falar sobre preconceito? Já se fala tanto, o tempo todo, que chega a dar preguiça.

É sério, acho um tédio.

Parece que essa conversa de que somos todos iguais nunca surtirá efeito. Mas hoje ao me deparar com uma notícia que tinha como título “Jovem relata ameaças e quer pedir desculpa a Aranha: 'Foi calor do jogo'”, minha indignação transbordou.

Como assim essa mulher justifica um ato preconceituoso pelo calor do jogo estando ciente de que insultos do tipo, por lei, são dignos de punição?

Só pode ser burrice, então.

Quem ainda duvida do racismo embutido no xingamento clichê da dita cuja? O preconceito está nítido. E calor do momento definitivamente não é justificativa, uma vez que a expressão dela não condiz com a de uma torcedora enfurecida, que perdeu a razão em meio ao descontentamento com o andamento do jogo.

Tem gente que precisa encarar uma verdade: preconceito racial existe, como qualquer outro tipo de preconceito. Falar de algum tipo de preconceito nem sempre é exagero, nem sempre é drama. No entanto, concordo com o fato de que sentar numa cadeira e escrever minha opinião sobre casos polêmicos do gênero pode ser tão banal ou insignificante quanto escrever uma poesia sobre batatinhas que nascem e espalham ramas pelo chão. Não, elas não se esparramam.

Por mais que se fale do quanto todos os seres humanos são iguais e merecem respeito independente de orientação sexual, religião ou etnia, a mentalidade de muitas pessoas simplesmente não se modifica, como se estas tivessem nascido com o cérebro atrofiado.

É difícil ter que encarar uma realidade dessas.

Não interprete como se eu tivesse perdido a esperança na humanidade. Apenas compreendo que nem ameaças indevidas de pessoas inconsequentes ou punições judiciais garantem que uma pessoa tire da frente dos olhos, a venda da ignorância.

Ainda não posso dizer se já perdi a esperança nos seres humanos ou se cultivo dentro de mim um sonho tão bonito quanto aquele um dia discursado por Martin Luther King. Talvez eu ainda seja uma sonhadora. Mas, o que se pode fazer diante do preconceito que parece que sempre se fará presente?

Eu não sei. No momento, minha única certeza é sobre o que não fazer.

O que não se pode é ignorar o fato de que pessoas tomam atitudes absurdas, pois ainda são movidas por um sentimento tão feio e infeliz, que deveria ser retratado apenas nos livros de história. Não é porque ainda existem pessoas cegas, que devemos fechar os olhos para não ter que ver uma realidade tão suja.

Que fique claro que meus pensamentos aqui expostos não foram despertados pela minha atual indignação. Todas essas palavras não foram escritas por um mero calor do momento.

Por Isadora Satie

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