quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Loucos como você. Em um lugar repleto de biografias.

Por Isadora Satie

Corredores gélidos, repletos de portas, por vezes, gradeadas. Livres, porém apressados, são os sujeitos de jaleco branco. Os outros que vivem naquele mesmo ambiente, ao primeiro olhar, permanecem cruelmente isolados - mas não estão isolados, muito menos de forma cruel. Atrás de cada porta, há alguém que vive em meio a uma insanidade, a um desatino, desvario, a uma falta de juízo e senso de discernimento, a um transtorno, distúrbio. Enfim, que vive em meio a uma loucura. Loucos, é assim que o senso comum os define. Muitos deles estão cientes do próprio problema, mas ainda assim querem voltar para casa e serem acolhidos.

Eles são os diferentes da sociedade. Não, diferentes não. Eles são iguais a qualquer um, sabe por quê? Pela história que carregam nas costas. Antigas histórias de percurso, fortes, difíceis, humanas. Se quiser entender o que os levou até lá, pergunte-os sobre o seu passado. Os que cometeram algum delito talvez falem sobre alcoolismo ou o vício em drogas que sustentavam desde a adolescência. Sobre uma casa que atearam fogo ou sobre algum familiar próximo que agrediram. Ainda que com certo receio na fala e desconfiança no olhar, eles se expressam. Cientes de que o erro cometido um tempo atrás não foi por acaso.

Existem os que possuem um acompanhamento médico maior devido a algum transtorno mental mais acentuado. Eles podem jurar que acontecimentos foram reais quando, por vezes, não passaram de delírios. Escutam vozes que sequer pertencem à realidade. Agitados, agressivos, sem controle de si mesmos. Muitos são extremamente introspectivos, o que acaba os tornando solitários. Talvez loucos sejam solitários, justamente pela sua loucura. Amargamente abandonados pelas pessoas que costumavam chamar de família. Há os que mantêm esperança de que receberão alta para, logo depois, serem levados para casa pela mãe, pelo pai ou por algum outro parente. A expectativa permanece, mesmo que a realidade prove o contrário.

Embora sejam cuidados por bons profissionais, o desejo de um dia poder sair de lá é quase unânime. A vontade de se recuperar é grande e, diga-se de passagem, admirável. Porém, há os que se acostumam, pois viveram uma boa parte da vida como nômades de hospitais psiquiátricos e existem até os que comemoraram muitos aniversários dentro do mesmo hospital. Eles sentem-se protegidos lá dentro, isentos de qualquer enxurrada de julgamentos e preconceitos da sociedade. Imunes a qualquer rejeição da própria família. Esses não sentem necessidade de voltar para casa, pois adotam o meio hospitalar como seu lar.

Como qualquer ser humano, eles possuem histórias únicas as quais muitas vezes guardam para si mesmos. Quando existe, a vontade de inserir-se novamente na vida social é gritante. Se não, é porque estão cientes das possíveis consequências de sair de lá. De qualquer modo, eles são loucos. Loucos por carinho e atenção, loucos por quem os acolha, loucos por uma vida menos conturbada, loucos para concretizarem sonhos. Loucos com desejos tão normais que intitulá-los de diferentes da sociedade, seria loucura.

Crônica feita depois das visitas em hospitais psiquiátricos, no 2° semestre do curso de Jornalismo pela Unisul.

Nenhum comentário:

Postar um comentário