Depois de três meses, ele a fitava ininterruptamente com aqueles olhos repletos de uma profundeza rara, que chegava a provocar nela certas tremedeiras. Como se rogasse por um humilde espaço em seu coração, como se implorasse por uma fresta que o tornasse capaz de adentrar esse coração com toda a cautela possível.
Jogava, aos poucos, todos os seus sentimentos, até então velados, na mesa onde os dois se encontravam. Num tremendo esforço, ele até conseguiu despir-se da timidez de sempre... Mas pronunciava cada palavra como se arrancasse com força uma por uma de seu interior, como se doesse ter que ser tão verdadeiro. Ela já sabia. Por uma intuição, pressentimento ou mero palpite, ela já sabia.
Os sentimentos dele transbordavam aos olhos do mundo, sem que ele percebesse. Em todas as vezes que ela o abraçava fortemente, deixando-o surpreso, quase que assustado. Em todas as vezes que recebia dela um carinho ou um sorriso inesperado. Porém, ela sempre foi assim, com qualquer um, totalmente desprovida de segundas intenções e, quem sabe, na cabeça dele apenas estivesse tudo bagunçado, invertido, mal interpretado.
Naquela mesa, ela apenas mantinha sua cabeça baixa, ciente de que se a levantasse se depararia com um coração alheio em mil pedacinhos, pois o coração dela não estava ali e, havia anos, não mais a pertencia. Estava nas mãos de alguém que talvez nem fosse digno de ser dono... Sentindo-se incapaz, não parava de perguntar a si mesma por que no amor a reciprocidade não se dava a toda hora. Seria tudo tão simples!
Chegou a conclusão de que é como uma cadeia sentimental. Alguém ama outro alguém, que ama outro alguém. E assim vai. Trocas sinceras são raríssimas. O que se sente vai sem garantia de retorno. A única resposta que saiu de sua boca, como num sussurro, foi: só o tempo sabe.
O tempo sabe quem, quando e onde esse amor, se é que isso existe, será devolvido na mesma intensidade a alguém que hoje sofre dessas típicas dores cardíacas emocionais. Enquanto isso, ela espera. Ele espera. Talvez um pelo outro, talvez por outras pessoas. Enquanto isso ela desabafa num papel qualquer. E, na tentativa de se distanciar da própria realidade e fingir que nada disso tem a ver com ela, prefere escrever assim, sempre em terceira pessoa.
Por Isadora Satie

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