Não te parece injusto ter tão pouco tempo de infância e esse tempo todo pra ser adulto? Os mais sábios e vividos, podem até dizer, e com razão, que sou muito nova para estar reclamando. Mas chegar aos 20 com a sensação de estar carregando uma tonelada de responsabilidade nas costas e chegar ao ponto de ter que encaixar um tempinho na agenda para estar escrevendo um texto como esse me enlouquece.
Dias atrás precisei ir ao colégio onde estudei desde a segunda série, onde passei a metade da minha vida. Uma palavra para o momento: nostalgia. Estar lá, ao mesmo tempo em que foi bom, foi triste por eu só conseguir afirmar mentalmente “estou ficando velha”. Não reconhecia mais nenhuma das faces dos alunos que perambulavam por lá. Onde estavam aqueles a quem eu chamava de pirralhos? Ficando velhos também...
Meus antigos professores é que continuam firmes e fortes, talvez com mais rugas e com o sorriso, mascaram qualquer cansaço. Tive que abraçá-los, um por um. No momento, senti uma vontade louca de perguntar por que nunca tinham me avisado sobre o que ando sentindo. Bom seria se tivessem me deixado ciente de que deixar a época de colégio para trás não seria tão divertido assim. E entrar no mundo adulto, menos ainda.
A vida adulta tem seus encantos e privilégios, mas nada se compara ao prazer da infância. Há uma contradição em dizer que a vida adulta oferece liberdade. Que liberdade é essa em que seus horários são totalmente preenchidos? Em que o seu chefe, seus pais e a faculdade cobram de você como se fizessem parte de uma conspiração? Isso porque nem falei de auto cobrança, o que às vezes assusta mais que os outros juntos.
A liberdade que tínhamos quando ainda não podíamos sentar no banco da frente do carro, era outra. Sonhar era o lema principal. Lembro que anos atrás eu falava, com uma convicção admirável, que me tornaria dentista, veterinária e arquiteta. Sim, os três. Ai de quem ousasse interferir nos meus planos! Hoje em dia, sonhar é diferente, e até mais limitado. Exige seriedade, pé no chão, cabeça no lugar. Aos 20 e poucos é como se tivéssemos que viver inteiramente em prol do nosso futuro. Tentando, a cada dia, buscar caminhos que nos farão felizes aos 30 e poucos.
Apaixonar-se já foi bem mais fácil. E agradável. Éramos capazes de entrar numa paixão e sair dela intactos. Lembro que desentendimentos entre amigos eram resolvidos com um abraço forçado e um pedido meio tolo de desculpas. E funcionava. Sinônimo de sucesso era conquistar nota máxima em uma prova de matemática. Lágrimas eram rotineiras, pois joelhos e cotovelos ralados eram rotineiros. Decepção era quando se descobria que o Papai Noel, na verdade, era o seu pai, seu avô ou um velhinho qualquer. Remédio eficaz para qualquer problema era o colo do pai ou da mãe. O medo que tínhamos nessa época era o de monstros, estranhos e “homem do saco”.
O que me faz falta é o jeito como enxergávamos o mundo. Olhos ainda inexperientes e, por isso, curiosos, atentos e sem maldade. Éramos cegos e, para nós, o mundo nada tinha de perverso. Mas a fome de viver presente na infância era o que impulsionava a vontade de crescer.
Talvez ninguém tenha me avisado sobre tudo isso, com receio de que eu perdesse a fome pelo futuro. Eles poderiam ter estragado tudo com certos spoilers. Pois o que faz de alguém um adulto é aprender por si mesmo como enfrentar a realidade, sem que haja aviso prévio.
A saudade é o que nos sobra.
Há quem não abra mão dessa vida de adulto por nada. Há quem, ansiosamente, espera o dia para entrar em uma máquina do tempo. Também há quem possa me dizer que todas essas palavras nada mais são do que uma mera crise dos 20 e poucos anos.
A saudade é o que nos sobra.
Há quem não abra mão dessa vida de adulto por nada. Há quem, ansiosamente, espera o dia para entrar em uma máquina do tempo. Também há quem possa me dizer que todas essas palavras nada mais são do que uma mera crise dos 20 e poucos anos.


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