sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Opostos

Por Isadora Satie

Ela era capaz de sentir. Ele parecia não ter coração. Ela transbordava. Ele quase secava. Ela era chuva incessante. Ele o deserto mais seco. Por um motivo que não se sabe qual, eles se encontraram. Plano de Deus. Destino. Acaso.

Inseridos em realidades completamente diferentes. Ela dançava quando quisesse. Ele marchava quando superiores quisessem. Ela se vestia de acordo com o tempo ou humor. Ele camuflava-se todo santo dia. Ela preferia a verdade, nua e crua. Ele poderia, sem empecilho algum, usar uma máscara, ou mais de uma.

Ela era fogo. Ele gelo. Ela era como primavera. Ele, outono. Posso até dizer que ela era emoção. Ele, muito mais razão. Mas quem os via passar, nada via de errado. Eram bonitos juntos. Seus sorrisos combinavam. Suas manias misturavam-se. Suas vidas conectavam-se. O que ninguém enxergava era como os dois eram opostos.

Ela, amor. Ele, orgulho.

Mas talvez um tivesse o quê ensinar ao outro. Aliás, ainda eram muito jovens. Inexperientes, pouco ou nada sabiam sobre a vida. E algo os unia, ainda não sei o quê, mas parecia ser algo forte, avassalador e único.

Os dois estavam cientes das diferenças que cada um carregava consigo. Aos poucos, percebiam o quanto tudo aquilo poderia ser perigoso e arriscado. Como se houvesse por perto uma bomba com tempo exato para explodir. Porém, sabiam que a química existente entre eles não poderia ser ignorada.

Ela era inocente, ingênua. Ele era esperto, malicioso. Ela vivia o presente, tendo o amanhã como mera hipótese. Ele, preso a um passado obscuro e um tanto sujo. Mas algo os unia. Talvez a vontade que ele tinha de aprender. Junto com a vontade que ela tinha de ensinar. Assim seguiam pacientes um com o outro. Pacientes com a vida. Dizendo a si mesmos que o tempo é sábio, e tem mais juízo que duas cabeças jovens.

Estações passavam-se. Não havia verão que esquentasse o interior gelado daquele cara. Não havia inverno que abrandasse qualquer chama dentro daquela menina. Ele a machucando sem querer. Ela o amando sem querer. O que viviam era tão incomum, tão louco, que ninguém poderia dizer-lhes o que fazer. Conselhos eram inúteis.

Eles lutaram contra a realidade, foram fortes. Mas um dia a bomba explodiu. Ela saiu machucada, ele não conseguiu protegê-la. Por isso, penso que final feliz não é para os fortes, e sim para os sortudos.

Hoje, eles não podem sequer dar as mãos. A temperatura dos dois não é mais compatível. Talvez nunca tenha sido. Ilusões, nesse mundo, são tão corriqueiras! A união fez com que enxergassem que não pertenciam ao mesmo quebra-cabeça. Mas eu sei que ainda existe algo capaz de mantê-los íntimos. Em uma sintonia quase surreal. Apesar de tudo, ainda atraídos um pelo outro. Talvez permaneçam assim por um longo tempo, mas nunca fiquem juntos. Pois os opostos se atraem, e apenas isso.

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