O que eu faço é escolher uma boa música, colocá-la no último volume, e me mover de acordo com cada detalhe da melodia. O corpo vai sozinho e aos poucos, deixo tudo pra trás. É minha saída de emergência para os incêndios que a vida provoca. E de incêndios, a vida de qualquer um é cheia. Por isso, parei de me perguntar se o que vivo seria uma loucura exclusiva.
Se é loucura, é de todos.
Dias atrás, uma amiga me disse que frequentemente sai correndo pela porta de casa, com o skate na mão. Segundo ela, o som que as rodinhas do skate fazem no asfalto substitui o barulho alto e incômodo das típicas brigas de seus pais.
O vento em seu rosto torna-a capaz de carregar consigo toda a confusão que insiste em habitar sua mente. As lágrimas podem não cessar, mas logo secam ou ficam pelo caminho. Ela deixa pelo caminho, até a própria vida.
Pelo menos por um instante.
Uma vez conheci um homem que dizia gostar de pescaria. Ele não pescava peixe algum. Quando fisgava algo, poderia vir qualquer coisa, mas jamais um peixe. Ele pouco se importava. O que verdadeiramente apreciava era aquele momento solitário, que nada tinha de triste.
Ficar por horas, sentado, observando a água e a paisagem o fazia esquecer das reclamações dos filhos, do casamento complicado, das buzinas inconvenientes, da bagunça da cidade. Esquecer do caos da própria vida, pelo menos por um instante.
Às vezes ouço minha mãe cantarolar pela casa. Ela me contou que quando jovem, até pensou em seguir carreira na música, mas a vida a levou para outros caminhos. De repente a vejo com o olhar vago, cantarolando refrões, trocando algumas palavras da música, mas mesmo assim é bom de ouvir.
Penso que em momentos como esse, ela sequer me enxerga. Então, deixo ela ali, na outra dimensão que ela mesma criou. Sinto que assim ela esquece da loucura que é passar dias inteiros em um hospital, correndo de um lado para o outro a fim de salvar vidas. E desse jeito, cantando as músicas de um CD antigo, ela salva a própria vida, pelo menos por um instante.
Uma válvula de escape. Um refúgio. Uma vez por dia, por semana.
Uma vez na vida.
Viver com os pés no chão, não impede alguém de querer voar, só para não ter que dar com a cara no chão. Bom seria se tivéssemos umas férias da vida. O jeito é dar espaço a si mesmo. Deixar pra mais tarde essa história de bater de frente com a vida. Encontrar um momento para respirar.
Fugir da realidade não é crime. Não é covardia. É sede de liberdade.
É ser livre de si mesmo. Pelo menos por um instante, que seja.
Por Isadora Satie

Mais uma vez aqui pra dizer, sou tua fã number one! You are much stronger than you think and with God’s power, you are stronger than you can imagine.
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