quinta-feira, 17 de agosto de 2017

meu artista preferido

Por Isadora Satie


Meu pai trabalhou por muitos anos atrás de um computador, com um bom cargo, numa empresa grande. Já depois de casado, chutou o balde. Largou o emprego e agarrou com unhas e dentes a paixão que nutria desde menino.

Atrás da nossa casa antiga, montou sua fábrica, a Miyoshi Móveis. Cada móvel depois de pronto tinha aquele cheirinho de novo, de verniz, e de amor. Quando era pequena, imaginava que minha casa só teria móveis feitos por ele.

10 anos atrás, ou mais, lembro que ele havia fabricado aos montes um porta-cartão com o objetivo de divulgar seu trabalho. Quando minha mãe saía de casa, levava alguns na bolsa e fazia o marketing em tudo quanto era lugar. Isso durou um bom tempo.

Dias atrás, fui até o centro da cidade a procura de uma blusa pra minha mãe. Depois de andar pra caramba, encontro a blusa perfeita. Quando chego no caixa, me deparo com um porta-cartão chamativo, e não é que era um daqueles?! Ainda novinho, simples e bonito como meu pai havia feito com as próprias mãos.

Em questão de segundos, o clima corrido e estressante de sexta-feira desapareceu de dentro de mim. E deu lugar à saudade. Mas também, à uma imensa gratidão. Por coincidência ou não, o nome da loja é Arigatô.

Depois que saí de lá, fui incapaz de conter o choro. A cada dia, entendo e aceito que é uma falta que palavras não descrevem.

Acho que o lado bom de ter tido um pai que pra mim era um artista apaixonado, é que volta e meia encontro um pedacinho da arte dele por aí. E isso faz com que ele esteja sempre por perto.

Obrigada, pai. 

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