sexta-feira, 6 de março de 2015

Aquilo que um dia nos deixa

Por Isadora Satie

Ela vivia descabelada, adorava desenhar e era magra, muito magra. Quando olhava para o céu, acreditava que a qualquer momento a lua poderia cair na Terra. Na mente dela, as pessoas das novelas, filmes e noticiários eram pessoinhas pequenas que moravam ali dentro mesmo, da televisão. Para ela, as bonecas da prateleira sempre conversavam umas com as outras quando ela não estava por perto.

Hoje ela é diferente. Ela sabe muito bem que a Lua não cai, que ninguém mora em televisões – até porque hoje em dia elas são muito finas para pessoas morarem - e que suas bonecas infelizmente não socializam.

Mas eu sinto uma falta imensa daquela menina. Sinto falta de como ela era, de como eu era. Ter os olhos ingênuos de criança é um privilégio universal. Pena que tal inocência inerente e tão própria à infância um dia é pisada, esmagada e triturada pela vida. Crescer é, de fato, inevitável.

Para mim, a fugacidade dessa fase é uma das maiores crueldades dessa vida.


É que agir e pensar como gente grande cansa. Ter demais, saber demais, necessitar demais, cansa. Crianças pouco têm e pouco sabem, talvez por isso sejam seres tão felizes. No olhar delas há mais brilho e curiosidade, no coração mais espaço e menos feridas, na mente mais pureza e menos preconceito.

Elas exalam simplicidade da forma mais bela possível.

Há quem não goste de criança, mas ainda não conheci alguém que não gostasse de ter vivido como uma.

A inocência era algo que não me limitava. Pelo contrário. Com ela, era como se eu tivesse asas capazes de me fazer percorrer os lugares mais longínquos da imaginação. Os porquês que eu não sabia, eu apenas inventava. A inocência era a terra fértil das melhores invenções.

Hoje nossos olhos tendem a chegar ao tédio com mais facilidade. Nosso coração tende a se fechar mais a cada decepção que a vida traz. Nossa mente não se atreve loucamente. Nossas esperanças perdem a força de antes. Tudo porque as verdades da vida nos são mais expostas e nos socam na cara todos os dias. Nocautes acontecem e aí, você sente saudade da época em que tudo, tudo mesmo, era mais simples.

Talvez eu não sinta falta da inocência em si, mas sim de como o mundo a minha volta era descomplicado. Falta de como as cores do arco-íris eram mais vibrantes aos meus olhos. De como tudo era mais vibrante.

Não pense que pelas minhas palavras, meu desejo é entrar em uma máquina do tempo e nunca mais voltar. Eu gosto de como a gente cresce e como a vida segue. Acho lindo, na verdade. É que existem dias em que essa saudade me vem à tona e preciso colocá-la pra fora, a fim de que eu não me sinta como a única adulta nostálgica nesse mundo.

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